OFÍCIO DE PARTEIRA
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Duas pinças... A medida de quatro dedos... A precisão... A tesoura e seu corte, a separar duas vidas unidas por um cordão....
O choro do inocente... a dor na carne de quem provou do pecado... O instante em que a vida traz em forma de gente, a consequência de um ato.
O suor que banha o rosto, que se mistura ao cansaço, ora se inflama na viração de uma lua ora ignorando os astros... Não escolhe dia, não escolhe hora da noite... Tampouco entende a distância e respeita temporais, que fazem rios transbordarem, que fazem sumirem estradas... E, tiram mãos sábias dos ranchos, dos filhos e dos seus sonhos, na escuridão das madrugadas...
A vida chega nas horas mais imprecisas, encontra a experiência de quem já viu muitas vidas passarem por suas mãos...
Pinça, tesoura, injeção, linha e agulha, vêm na maleta de couro junto c’o amor pelo ofício, de quem não mede sacrifícios nem se assusta co’as esperas... Ajoujadas às ferramentas, as ervas, que misturadas co’as rezas trazem certeza “na hora”, são bem mais que crendices... São rituais milenares passados de mãe pra filha, que se iniciam “olhando” pois, nesse ofício de parteira não há tempo pra exercícios... É na prática que se aprende!
Quando se tem a certeza, de que barriga pegou, a parteira é avisada... e contando pelas luas se calcula se é no inverno... No mês brabo das enchentes... No calorão que arde o couro das gentes... Entre a colheita do milho, o plantio das novas sementes ou no mês da floração...
E tudo fica acertado pra quando o piazito chegar... Sim... ela reconhece no formato da barriga se é menino ou menina... Se o pai pedir garantias, existem as simpatias que não deixam dúvida a ninguém... Aí, se fizerem apostas ou quiserem escolher um nome é por conta da família, pois a parteira somente diz aquilo que sente pela experiência que tem...
Pra que a mãe faça o repouso conforme a necessidade, também se faz necessário ficar distante do pai... Faz dessa casa a sua casa... Cuida de todos como se fossem os seus pois a mãe convalescida, será por ela assistida enquanto o umbigo não cai...
Se isso durar sete dias, sete dias fica ali, pois, com umbigo rendido não se brinca... E sua conduta indica que deve permanecer, sempre atenta ao seu ofício, pois não termina o serviço só porque, por suas mãos, mais um ser chega chorando enquanto o pai vai anunciando que o seu herdeiro nasceu...
Essa mulher de mãos firmes, que sabe aparar criança também guarda na lembrança, as tristezas de outros partos... Já viu chegada e partida... Na mesma hora, trazer criança pra vida enquanto a mãe vai embora... Ter as mãos ruborizadas pela força de duas vidas que se doaram inteiras pra que o milagre aconteça, mesmo que permaneça pra sempre aberta a ferida...
Não tem segredo esse ofício... Não tem limites esse dom... Precisa é ter coragem bem mais que disposição... Pra ver a cor escarlate, sentir o cheiro que invade, tocar a vida que teme a vida num choro revelador... Sentir a dor junto co’a dor de quem emprestou mais que o corpo pra que o milagre existisse... Saber orar em silêncio, rogando ao pai nas alturas... Pois dar a luz é ser ponte, é ser mais um instrumento onde Deus, no firmamento, aponta os seus eleitos, seus fiéis depositários, guardiões de criaturas.
Assim segue nessa lida de ser parteira e mulher... Dar amparo e ensinar aqueles que ainda não sabem como banhar seus rebentos, que nem sabem de onde vem... Dar a benção, também... Pois é madrinha de muitos e até se perde nas contas, quando perguntam num pealo, pra quantas crianças recém-nascidas, já dera o primeiro colo... Neste ofício de parteira onde fora iniciada muito aprendeu nas estradas... Em noites escuras e frias, atravessando picadas, montando cavalo brabo ou andando de carroça... Pulando cercas e sangas, fazendo valer a palavra pra homem desavisado, que prioriza a colheita, pois leva a mulher parindo, junto com ele pra roça...
Neste ofício de parteira onde fora iniciada será pra sempre lembrada como mulher de valor... Que aprendia com a dor... Que aprendia ganhando... Que aprendia perdendo... Mas, que aprendia muito mais recebendo... Recebendo com mãos limpas e abertas as vidas de tantas vidas incertas que viu passar por aqui... Pois fora parte do ciclo, onde nascer e crescer, também implica em morrer...
Ao ver tantas almas impressas na carne, despidas de todo mal, viu sua missão realizada naquela força incontida, que se encontrou revelada no ofício de parteira que deu sentido a sua vida!
Poema inspirado nas obras da escritora gaúcha Elma Sant’Ana: “As Parteiras” e “Parteiras, Benzedeiras e Benzeduras”