Órfão de Mãe Preta
Publicado em
Patrão! É o negro Venâncio Que pede vossa licença, Pra vos dizê que a Vicença Morreu de parto, patrão E ao ir pra baixo do chão Não tinha nada de seu, Só deixô quando morreu Este negrinho chorão.
Neto da negra Donata Escrava do vosso avô, A negra que amamentou “Vacês” tudo, patrãozinho. Por isso eu “truxe” o negrinho Afim que “vacê” o ajeite Pois mais do que “ropa” e leite, Ele “percisa” carinho.
A Vincença, “miseráve”, Morreu sem le botá nome E aqui está, roxo de fome O pobre entinho bendito, Sem força nem pra dá um grito E os “óinho” cheio d’água “Refretindo” a triste mágoa De tê ficado solito.
Me alembrei que a patroinha Há “poco” ganhô “famia”. Patrão, quem sabe ela cria, Como paga de um favor, Esse entinho sofredô Pialado da sorte ingrata, Pois é neto da Donata, Que foi vossa mãe de cor.
Não fique bravo, patrão, Nem tome por desaforo. Mas “óie” que ouvindo o choro Desse negrinho mijado O índio mais calejado Tem vontade de sê “bão” E chega a pedir perdão De tudo quanto é pecado.
“Adiscurpe”, meu patrão Eu sinto o que “vacê” sente “Contemprando” esse vivente Que as lágrimas nos arranca Mas vai vê que o choro estanca E o negrinho da Vicença Nem vai achá diferença Entre mãe preta e mãe branca.
Já vô simbora, patrão! Nosso “Sinhô” o abençoe E ao mesmo tempo perdoe Aqueles que tudo tendo Passam a vida, não vendo, Cegados pela luxúria, A miséria e a penúria Dos que já nascem sofrendo.