Os Animais
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Porque os animais falavam Não os chamamos jamais de animais. Ademais porque adoramos seus retratos Porque viemos deles e os chamamos De nossos ancestrais. Porque andavam sobre dois pés Como hoje nós. Lutamos como cães com quem aluda Terem sido animais nossos avós.
A história verdadeira desses homens Não a história oficial, cheia de dedos Sempre relevada em seus segredos Põe a nu à outra face das figuras. Levantados num cravo das molduras Olham-nos com olhos abissais Os animais.
Lá estão severamente ornamentais Os que a memória titulou De alferes, caudilhos, Coronéis e Generais.
Eu nasci noutro tempo E noutro espaço E, também como vós, Guardo as armas De sangue dos avós. Mas sei a história deles Infelizmente para mim e para nós. E me animo à contá-la porque venho De uma rama do clã dos animais.
Foram heróis a seu modo E a seu modo vilões, os animais. Enquanto alguns atropelavam lanças Na vanguarda das tropas e piquetes Outros chairavam facas nas degolas Riam dos que mostravam punhos amarrados cortavam-lhes a jugular como quem brinca de decepar a cabeça de bonecos nas cavalhadas de Mouros e Cristãos.
A certos Animais lhes sobravam galões e faltava coragem. Para brigar por suas cores e idéias, importavam a peso de libras e vantagens façanhudos mercenários orientais
Alucinatório, o fogo os fascinava. E o adoravam para brinquedos a Sério nos combates. Cercavam ranchos, casas de tijolos, Capões de mato, e os transformavam em chamas Não lhes doía o estertor das tochas vivas De que morriam carvões junto a seus pés.
Alguns dos animais Cortavam a peia de seus prisioneiros E lhes abriam a ilusão da liberdade. “Ide em paz – lhes diziam – mas correi” e os abatiam pelas costas.
Nos ataques às estâncias, no cerco as vilinhas perdidas, nos empíricos mapas rabiscados, as mulheres (dizei a favor dos animais) eram poupadas. Para o banquete carnal, seja acrescido. Para os chefes as primícias do hímen As lágrimas sugadas pela língua Saburrosa e viperina. Respeitava-se a hierarquia a hierarquia nesses lances. Aos negros pela regra, Sobrava a inércia, a carne castigada, Não raro o rito da necrofilia.
Nem todos, ou raros foram assim, Tão animais. É pena que a exceção confirme A regra todos conheceis demais. É que sempre, atentai, Por de trás de um justo existe a sombra Os caninos e a garra do Animal.
Hoje? Pouco mudou ou mudou quase nada, Ou quem sabe mudou para pior.
O clã dos animais estupra e mata, Mercadeja a tortura, rói no escuro, Abate pela espádua e atropela. A morte encomendada se anuncia Na manchete de todos os jornais. A chama come a carne da inocência E a droga faz plantão junto às escolas. Judas multiplicou suas moedas E venda justos para o sacrifício. A corrupção refinou os Animais E o poder e seu ouro é o Santo Graal Que os impele a subir sem pisar em degraus.
Dói-me Senhor, Este sangue da palavra que arrancaste Como pedaço de mim teu instrumento. A razão me fez escrevê-la E em teu nome Senhor, a subscrevo.
Olho o retrato dos avós que dormem Com sua excelência e pecados E me envergonho Senhor De havê-los desnudado De seu manto de santos e heróis. Foram frutos da planta de seu tempo E se trançaram os avós, pela rota marcada Na carta de viagem, Que lhes deste aos de Ontem, ao de Hoje, Aos de sempre Animais.
À tua imagem e semelhança desenhados. Apenas isso Senhor E nada mais.