Alma em Verso
Poesia

Os Caveiras e o engodo da Morte

Carlos Omar Villela Gomes

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Os olhos nem se cruzavam desde a saída pra lida... Um vinha mais que montado num baio que era um colosso, O outro vinha num trono, enforquilhado no mouro. Dia longo, sol ardendo, légua e pico, campo vasto... Enfim o final de tarde e a volta mansa pras casas.

Num repente o do baio cravou as esporas e deu-lhe boca! O outro por ligeiro, lá cutucou num puaço o mouro que vinha quieto, Poeira comendo floxa, gritedo ecoando longe! Pata que pata, os cavalos! Relho que relho os gaúchos!

Carreira sem pretensão, sem cismas de cancha reta... Uma carreira de campo, Conforme disse o poeta. Carreira dessas parelhas Corrida por dois iguais... Dois índios de campo e lida Com alma de temporais.

Mas havia no caminho uma toca de mulita... Houve uma toca, uma pata enfiada, um mouro rodado, Um pescoço quebrado, uma moça viúva Dois piazitos órfãos e um velório ás pressas.

Houve sim, mas e por quê? Por que a carreira, por quê? Nem mesmo o moço do baio ao certo soube dizer.

Por que se calou de soco quem tinha muito a viver? Por que se calou, por quê?

Por entre o pranto de todos, Em vez do moço do mouro Jazia apenas um corpo Já sem estrelas no olhar.

Ao lado os caveiras sorriam com suas caras brancas, Estranhos feitos um palhaço dançando dentro de um vaso.

Só eles sabia bem... Só eles tinha a voz; Sabiam cada segundo Da hora de todos nós. Sabiam que tinham a foice Afiada, à mão de ceifar... Sabiam o tempo exato Que a foice cortava o ar.

Os caveiras se esbaldavam... Sorriam suas caras feias De um jeito devastador.

Talvez lembrando o momento Em que um deles se achegou, se engarupou no baio E soprou ao pé do ouvido do que se achava montado: “Crava as esporas e azula!” E assim foi que aconteceu. Talvez lembrando o momento em que o outro, sussurrante, Chegou para o hoje finado, e disse “corre de atrás!” E o moço, por bem mandado, correu atrás... e morreu.

Se divertiam assim... Assim era que passavam.

De vez em quando nos rios, nos açudes mais traiçoeiros, Nos arroios mais covardes, chegavam pra gurizada, Como não querendo nada “Mas tche, quer baita calor!” O suficiente já era... Em dez ou quinze minutos, meia dúzia de afogados Pra aumentar sua coleção.

As palavras dos Caveiras (Com suas sílabas traiçoeiras) Eram o engodo da morte.

Tantas feitas sucedidas com feições inusitadas... Tantas coisas escondidas sem histórias mal contadas; Os Caveiras eram praga pairando por esta terra; Se já aprontaram na paz, se deliciavam na guerra.

Trinta e cinco foi assim, paraíso pra os Caveiras Que ponteavam cada carga com suas frases derradeiras; Noventa e três, tempos bravos... Eles chegaram gabolas... Lavaram as caras brancas no sangue ruim das degolas!

E assim foi por tanto tempo... E cada revolução... Em cada fio de vingança Do cornudo da ocasião. Em cada trago de canha Das peleias de bochincho, Estavam sempre os Caveiras com seus medonhos cochichos.

Era o engodo da morte Satisfazendo os caprichos.

Sei que a morte não é o fim, Mas precisa ser assim? Derrubados pelo engodo Com palavras de festim?

Cadê a seqüência das coisas? Cadê os ciclos naturais? Pior que a morte de um filho Só mesmo a dor de seus pais... Não tem a mão do destino Nessas piadas fatais!

Ouço uma voz murmurante acariciar meu ouvido, Enleando os pensamentos em cada duplo sentido... Talvez me leve por diante, talvez me arraste no estribo.

Quem sabe são os Caveiras, sorrindo em suas caras brancas, Trazendo o engodo da morte, cobrando a vida sem prazo... Estranhos, feito um palhaço dançando dentro de um vaso!