Alma em Verso
Poesia

Memorial de um Lenço – Osmar Ransolin

Osmar Ranzolin

I Querência da Poesia Xucra - VirtualPublicado em

Naquele lenço encarnado Que o velho atou no pescoço Há mil histórias que o moço Não imagina sequer...

Há uma legenda de sonhos De campos floreados de estrelas De tropas boieiras antigas Perdidas, no rodear das distâncias, Que o tempo fez vulto e memória E que habitam retratos na estância.

Há uma leva de guerras - Lutas de irmão contra irmão – De homens que deixaram seu sangue No altar cru - da revolução.

Em tempos antes do lenço, E antes de haver Rio Grande O vermelho se fez sinal Do sentimento pulsante, Da república dos iguais No antigo continente, E veio fazer morada No meio da nossa gente.

Há nessa cor selvagem, O índio Sepé que se ergue E carrega a cruz do Templário, Que enfrenta a tropa da Ibéria E tomba em defesa do pago, Pra forjar a raça gaudéria.

No pavilhão tricolor Guarda a história de Bento, De Netto, Garibaldi e Anita, Dos ideais libertários que outrora Incensaram as portas dos Templos, Que fizeram dos Homens Justos Guerreiros de lança e espada, E a Pátria Gaúcha é forjada, E no tinir de três marteladas.

Há o espetáculo funesto Da vingança dos maragatos, Da degola de mil vozes Às margens do Rio Negro... Do brado do inocente Ao grito do insensato, A cor que a rebeldia Tingiu em nossas bandeiras, Alçando novas fronteiras Muito além das sesmarias.

Do rubro sangue caudilho, Que lavou Anhatomirim, Que separou pais e filhos, Para nos reunir, no fim Nessa vergonha eterna De carregar o nome, De Floriano, Em nossa terra.

Há uma centelha de sonhos Que se espalharam no ar, Das quermesses nos povoados, E dos domingos de carreira... Há um tropel açodado, Mesclando pata e espora De um ginete da fronteira Que se perdeu, campo afora.

Há uma meia-espalda, De um duelo em campo aberto Trazendo o destino incerto Do fio que busca o corpo.

- E à moda Cambará – Há de lamber o oponente Pra sorver o sangue quente Que brota rubro e selvagem, Mesclando à cor, da roupagem Do imortal capitão, Lenço vermelho – à mão, E um punhal de entreposto Gravando a ferro a letra Que iria ficar meada Na curvatura do rosto.

E o lenço se torna mito Vira herança sagrada, Em cada estória contada E pra cada verso escrito. É o sinal de igualdade - Repetido no galpão – Que nos dedos do peão Vira’lma e identidade.

Te vejo hoje garboso No peito do Laçador! Recordando a toda gente - Recordando mesmo a nós - A história dos ancestrais Dos avós de meus avós, Que precisou ser perdida Para que, lhe sentissem falta E então tivesse valor...

Naquele lenço encarnado Que o velho atou no pescoço Há mil histórias que o moço Não imagina sequer...

Há uma legenda de eras Que ele talvez desconheça, Mas que o velho há de contar Pra que a história não pereça, E no futuro incerto Quando o tempo tingir o moço, Com as cores do mesmo afeto Ele ate um nó no pescoço, Na memória, de algum neto.

Crédito da fonte: Osmar Antonio Valle Ransolin