N’alguma Volta de Estrada – Osmar Antonio Ransolin
IV Colheita de Versos Abdon Batista - SCPublicado em
Ali na volta da estrada Num domingo muito cedo Vi no meio do arvoredo Uma fêmea de onça parda - Andava na retaguarda - De alguma espécie de caça, Campeando a boia escassa De quem vive nos caminhos Nesse mundo mesquinho Dos que nasceram sem raça.
Andava num passo lento Olfateando a imensidade, Presa na orfandade Dos que vivem sem alento, Buscando na cor do vento Qualquer sinal de esperança De encontrar paz e bonança, E algum refúgio intocado, Onde o progresso é barrado E o homem não alcança.
Pra quem já foi rainha E senhora deste chão, Hoje foge na escuridão Da crueldade mesquinha, Foge da espécie daninha E da ambição insana, A parda que foi soberana Desses campos e invernadas Vive na curva da estrada Correndo da raça humana.
Por entre a selva plantada, Vinha no passo, a baia, Esperando uma tocaia, Em cada curva da estrada, De alguma bala atirada, Por andar perto da cidade, Por ambição ou crueldade, Do homem que é vingativo, E que encontra mil motivos, Pra matar a diversidade.
Vinha na curva da estrada Uma fêmea de leão-baio, Vi passar de soslaio Como quem segue apressada, Andava buscando pousada Em alguma paragem segura Com a inocência das criaturas A quem prometemos guarida, E andam perdendo a vida Nesses tempos de amargura.