Pampa do Amor
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Eu amo o Pampa Gaúcho: largo, heróico, sem bucal, irmão da pampa oriental e dos verdes transplatinos. Amo os três pampas latinos, onde nasceu a saudade e a seiva da liberdade, tropeando sonhos teatinos.
Amo as serras e as coxilhas, e o sulco pro pão da vida, e a esperança escondida em cada curva do vento orelhano, vivo, atento, amadrinhando recuerdo que retorna a passo lerdo, feito carícia e lamento.
Amo o silêncio da noite, pirilampeado de estrelas brancas e azuis e amarelas, brincando de esconde-esconde, quando a nuvem se faz fronde de fantasmas e paineiras, imitando cordilheiras que vêm sem dizer de onde.
Amo este pampa de potros xucros, sem marca e sem dono; os fogos de chão sem sono e os tempos de marcação. Amo a ternura do peão e os causos de luas cheias, de boi-tatás e "candeias" e as rodas de chimarrão.
Amo seus velhos retratos de patriarcas e palhoças; de gringos novos e moças com sonhos d'outras instâncias vindos pra estas distâncias que navegam nas lagoas, inventando-se em canoas dum mar sem ondas nem ânsias.
Amo a voz do quero-quero, cortando a noite assustada, temendo "a tatá" endiabrada, à procura do "Negrinho"; amos seus trigos, seu linho, Pampa-América-Latina, Pampa uruguaia, argentina, PAMPA DO AMOR, do carinho.
Porque trago na lembrança os dias que não vivi, amo esses tempos em ti, PAMPA de todas as glórias, e das fomes e as histórias de bravuras e derrotas, de "pés no chão" e de botas, redivivas nas memórias.
Amo as porteiras abertas que pariram as Bibianas, as Anitas e as profanas prostitutas dos valentes, que deitavam, indecentes, qual escravas de combate, cevando luxúria e mate, nos catres de outros ausentes.
Amo teu cheiro de pasto, depois e antes da chuva que igual aos vinhos da uva, m'embriagam desde menina. Amo teu seio de china parideira, destemida, que inda hoje é guarida de semente concubina.
Por isso te amo, meu PAMPA, com teus pobres e teus ricos, com teus pardais, tico-ticos, tuas garças e caranchos; teus bailecos e farranchos e tuas juntas de bois, carreteando frio e sóis, pros horizontes sem ranchos.
Amo teus filhos que cantam, que choram a fome velha; que criam vaca e ovelha pra guaiaca do "doutor"; qu'acreditam no Senhor que permite as injustiças que se acoitam nas cobiças com chicote de feitor.
Nesta hora de incertezas, de preces ocas, escravas, lembro, sem nomes, as bravas, que com as forças do Além, foram mãe e pai também, pras crias que o ventre-céu, pariu guachitos, ao léu no PAMPA DO AMOR... Amém...