Peona
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Cidinha fez sete anos Sem festa, presente, nada...
A data só foi lembrada Na folhinha da parede, Que mostrava uma boneca Que ela sonhava comprar.
O pai andava tropeando Ou talvez contrabandeando; Contrabando na fronteira Embora “brabo” é profissão.
Cidinha fez sete anos Sem festa, presente, nada...
De manhã muito cedinho Quando o sol bandeou a janela, Ganhou apenas carinho Na benção que a mãe lhe deu.
O rancho de pau-a-pique Bem limpinho, chão batido Vivia o louco gemido Dos que a dor sabem esconder.
Somente a alma bonita Da menina sem boneca, Brincava de aniversário Nesta festa sem ninguém...
Cidinha fez sete anos Sem festa, presente, nada...
O dia passou correndo A noite chegou depressa, E com a noite a promessa De um lindo e novo amanhã.
Talvez o pai se lembrasse De lhe trazer um presente? Mas o pai que andava ausente Chegou e...”buenas” no más.
Dos padrinhos? Pobre gente! Para o batizado em casa Quase sempre são parentes Ou vizinhos mais chegados.
Na igreja custa dinheiro; Em casa uma vela basta Pra reza meio cantada Que nem decorada está.
Como esperar a menina Que lhe trouxesse presente, Gente sem fé na esperança Sem hoje, sem amanhã?
Cidinha fez sete anos Sem festa, presente, nada...
Foi bem cedo para o catre, Se cobriu com o poncho velho - cobertor des’que nascera e rezou para dormir.
Sonhou com o Patrão Celeste Junto do catre, bem rente Que lhe trazia um presente Todo envolto de luar.
Sim era aquela boneca Com um sorriso sapeca, Que saíra da folhinha E viera em sonho lhe abraçar. -------------------------------- Cidinha fez sete anos E aí parou de contar... Sem escola, sem boneca Sabe Deus onde andará?
Talvez de peona em estância Dormindo em muitos pelegos... Amargo preço do emprego Dos que não tem profissão.