Pó de Estrada
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Nas guaritas bambas das porteiras fui sentinela em tardes de guri da teatina vida das estradas... Olhos distantes, de lonjura a fora, procurei no ritual das polvadeiras encontrar respostas verdadeiras do por que das idas e demoras.
A carreta passou, chorando rodas e o boi-da-ponta se avivou em patas quando a picana cutucou no lombo. Eu não sabia, mas a carreta não mais voltaria, porque "a lo largo" da estrada fez-se estátua e foi dormir no catre dos museus!
O rufar de patas fez tremer barrancos e a cortina de pó ganhou os ares, como nuvens carregadas para chuva, levando tropas para o matadouro. Entre assovios e o latir dos cuscos o "eira boi" finou-se no horizonte, seguindo os rastros dos que vieram ontem, mas fazendo marcas de casco e pai de fogo para deixar pros que viriam atrás. Eu não sabia, mas a tropa também não voltaria, pois um tropeiro bagual e roncador, com aporreados cavalos de motor, faria changas no rol das invernadas levando o gado, sem gritos, sem pousadas, sobre as potentes patas de borracha.
O peão de estância que enfrenou o zaino e emalou recuerdos para domar saudade, também passou pras bandas da cidade, entonado de pilcha e de esperança. Eu não sabia, mas o peão também não voltaria, pois enormes vaga-lumes de ilusões rondariam as janelas dos galpões procurando o potro-liberdade, para prendê-lo, de alma e pensamento, no tronco de asfalto e de cimento de um brete chamado de cidade!
De alma em cerne e melenas trancadas de minuanos, veio gambetendo ao grosear dos anos o velho alambrador que plantou cercas para o varal das verdes caturritas... Olhos compridos de varar os montes, também quis ver, bem rente da barbela, que luz estranha era aquela que incendiava o horizonte? Eu não sabia, mas o alambrador também não voltaria, pois que adiantaria ainda semear moirões se o pampa se rendeu às vastidões dos muitos e muitos latifúndios! ...E muitos outros passaram pela estrada: "O Ligeira", o Mascate, o Domador... Pessoas que sovaram o corredor em busca de um além que se fez sonho nos contos de fadas do horizonte. Eu não sabia, mas ninguém mais voltaria, pois onde desemboca o rio da estrada, nas águas turvas e negras dos asfaltos, arrinconou-se o crime e os assaltos extorquindo valores e morais, fazendo com que além das sesmarias ficasse mais solita a gadaria e mais inútil o lombo dos baguais!
E numa volteada também me dei por conta que o pampa fenecia igual tapera e apesar da minha saudade e espera ninguém... ninguém mais retornou!
Eu quis saber porque ninguém mais voltou e o que encontraram de bom pra não voltar. Desci da minha última porteira, vesti minhas ilusões mais estradeiras e me mandei, também, a "deus-dará". Porém, aí eu já sabia que também não voltaria, pois, como os outros, bateria o pó da estrada bombeando rumos que não levam a nada, sem ter coragem pra poder voltar...