Poema Circular
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Não, não me procurem mais no meu velho endereço la no campo. eu estou me mudando, eu estou de mudança estou mudado.
Compreendam: no meu velho endereço la no campo só havia ficado o coração - já menos moço para os frios de agosto, Para os ventos parados de verão. O resto - Braços e pernas, Mãos, tronco e cabeça - a muito tempo ja pagava frestes num caminhão de carga que os trazia pela fita do asfalto, de um a um.
Claro, vim aos pedaços, como resistindo. E quanto eu resisti!
Partido, repartido, a metade de la chamava outra que havia se mudado para aqui. Eu ia. E no meu velho endereço la no campo estava a bombacha vazia num espaudar da cadeira (e como é triste uma bombacha vazia de seu dono!) E os chapéus sem cabeça, nos cabides, um lenço colorado sem pescoço, as botas paralíticas junto ao penico de louça, sob a cama, - O meu jeito de andar perdido delas.
Não, não me procure mais no meu velho endereço la no campo. Eu estou me mudando, eu estou de mudança, Estou mudado.
Trouxe nas malas anos de recuerdos:
As esporas do avô, um mango retovado, uma franja de pala, um barbicacho, um estribo sem loro, uma cambona, uma panela com terra, um boizinho de argila que não berra e um cavalo de ventos para andar.
Tudo isso nas malas, elas que são o avesso da gente, poque são íntimas de nós e nos carregam.
Não, não mandem mais a meu velho endereço la no campo, livros de versos, discos e romances, revistas e jornais, nem avisos de amigos qiue morreram, nem notícias de netos que chegaram como o menino Jesus, pelos natais.
Tudo isso - Vinham de alma, pão para matéria - tem um novo endereço de remessa: uma casa de brisas e tijolos numa cidade que eu amei depressa pelas raízes campeiras que ainda encontro nas ruas de seus bairros e travessas
Ah, quanto cantei - de alma limpa e boa boca, em salmos e protestos e orações - o meu terrunho que deixei plantado o que tive de melhor no coração!
Um dia, os que virão, hão de saber que eu estanciei por la, nessa casa amparada por retratos que vigilam na sombra como guardas de uma herança que eu não sei quem herdará.
Na casa, fiéis como estes gatos que não mudam embora se mude o dono e vá-se, estarão os meus livros e a vitrola para falarem por mim - pelos meus versos, e cantarem por mim - pelas cantigas...
E assim me hão de encontrar os que saudarem nos portais do solar o Ó de casa! Que no meu tempo escancarava portas e abria corações para os andantes.
Não, não me procure mais no meu velho endereço la no campo. estou me mudando, estou de mudança, já mudei.