Porteira do Rio Grande
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Foi num mês de julho. Era inverno. Um branco véu cobria a pradaria, Embelezando os campos de Vacaria. E os gaúchos, ao derredor de braseiros, Chimarreavam mui altaneiros. Eram caudilhos e jovens idealistas Que consolidavam idéias nativistas Como que falquejando um palanque primeiro.
Os mais jovens cevavam o mate; Atentos, ouviam as histórias do passado Para assimilarem a responsabilidade do legado E não deixarem uma tradição se perder Como as cinzas daquele braseiro a arder. E a cuia, que passava de mão em mão, Era a própria mensagem do coração Reverenciando a candura daquele amanhecer!
Era então, vinte e três daquele mês; O ano: mil novecentos e cinqüenta e cinco. Foi por isso que nasceu forte, com afinco A idéia daquele punhado de entusiastas, Acima de tudo tradicionalistas, Oriundos deste Planalto Pampeano, Estampa legítima do gaúcho Vacariano De ideologias Chimangas e Maragatas.
Naquele momento, a cor do lenço não importava, Tampouco o ideal partidário a quem pertenciam, Mas sim, uma proposta nova que defendiam, Fundar uma autêntica sociedade Que trouxesse junto à própria identidade A verdadeira tradição campesina E que reunisse o patrão, o peão e a china Como amigos verdadeiros, sem luxo, sem vaidade...
E surgiu a principal exigência: a pilcha! Sendo contemplada no próprio estatuto Como que, num respeito absoluto E para que fosse sempre exaltada Naquela novel entidade, recém formada E para traje oficial nos bailes do Clube União Que, embora cedido, representou o primeiro galpão Dos divertidos bailes da Gauchada.
Fora um palanque cortado em boa lua, Marco fincado por hábeis mãos campeiras No lombo desta coxilha altaneira, Por isso, foi resistindo, de rodeio em rodeio; Tendo um ano vago de entremeio Segue, despacito, resistindo a cada evento E foi-se perpetuando através do tempo E hoje, já futuro, o palanque se fez ESTEIO!
Se fez forte na rusticidade das lides Desde a época do bugre e do gentio Que habitaram neste torrão bravio. Foi daí que se forjou a têmpera d’um campeão E fez de cada Vacariano um Patrão Do Rodeio Crioulo que é legenda Para enaltecer o sarandeio da prenda E respeitar o braço forte do peão!
É nesse encontro de ginetes e laçadores Que se “aprofiam” esses tauras campeiros, Heróis anônimos e leais guerreiros Que pela honra sempre defenderam este chão E se proclamaram legatários deste quinhão Para demonstrarem na festa do tradicionalismo A verdadeira essência do nativismo E o orgulho arraigado na própria geração.
Aqui se irmanaram Gaúchos e Castelhanos E dentre tantos: “Poncho Oriental”, “Fortin Dollores” Para mostrar seu folclore, seus ginetes domadores Sem esquecer o pioneiro “Los Tientos” Que abriram esse caminho em teus eventos. São artistas, ginetes com rastas cintilantes Na liberdade das melenas esvoaçantes Demonstrando sua perícia, seus talentos.
Dom Augusto Petró, celebrou a Missa Crioula Naquele ano de sessenta e quatro Num altar gaudério, sem aparato. Foram momentos de agradecimento e devoção No compasso dos acordes de um violão Para homenagear a Senhora da Oliveira Que escolheu esta terra para Padroeira E encerrar o Rodeio com fé e emoção.
Palanques que sustentam esse alambrado No talento do João Maria, do Gilberto Monteiro De um Tio Góes, dentre tantos o primeiro Representando seu CTG Alexandre Pato Ou na montaria do paulista Aparecido Honorato Fizeram nascer versos trançados de inspiração De um laureado poeta como João Pantaleão Que fez da rima a moldura desse retrato.
Quanto troféus já foram conquistados Por tantas prendas lindas e faceiras Esbanjando singeleza e simpatia trigueiras! E também na trova, na declamação, E no teclado da Cordeona, nas cordas do violão. É onde o cavalo se faz companheiro Do laçador, do ginete e do campeiro Para dividirem o laurel maior de campeão.
Aqueles homens jamais imaginariam Que aquele modesto Rodeio Regional Se transformaria no grande Rodeio Internacional Representado nesta sociedade de forte estrutura Cujo palanque foi de excelente feitura Para enaltecer o verdadeiro culto à tradição. E, maior troféu conquistado por um peão É beijar a grama da “Cancha da Ferradura”.
São reminiscências lampejando pensamentos Desse passado tão próximo que vem à memória Lembrando aqueles que escrevem esta história. Desde um Dorival Guazzelli, nosso Patrão primeiro A um idealista, chamado Firmo Carneiro Para reverenciarmos os trinta e três fundadores Que são os “palanques” precursores E lumes eternos na chama deste candieiro!
Estes “palanques do passado”, hoje são “esteios”, Como foi Bento Abreu, um destacado patrão, Como foi Pedro Néri, um ginete, primeiro campeão; Lalau Ferreira, laçador, ginete, sempre altaneiro Representou o Brasil no longínquo estrangeiro Florentino Rezende, chuleador sem comparação; Da Esmeralda, o Zé Mendes e seu violão E Getúlio Marcantônio, Patrão do Rodeio Pioneiro!
E na declamação, quantos destaques: O grande Osmar Rodrigues foi imbatível, Nego Jorge, lenda viva, insubstituível. O chimarrão do Sganzerla, o peão Vino Gaúcho Do grande Túlio Rossi agüentado o repucho; Fenomenal “Matapau”, campeão domador Fazem história na perícia do “orelhador” D’uma égua “33”, garbosa, aporreada e sem luxo.
São peões e ginetes de tantas querências Que já montaram em tanto potro “maula” Sidnei Vigil, nosso Volmir de Paula Peritos de braços fortes, campeões de estirpe; Num “doze braças” o respeito aos irmãos Felipe. Também foram poetas que nos encheram de emoção: Retamozzo, Jaime Caetano Braun, Ciro Gavião, Maria Dinorá, Nico, todos escreveram versos de elite.
Adentremos então pela “porteira do presente” Para vermos esse passado autêntico que se descortina. E, tantas lembranças que nos vêm à retina Que para poderem cercar essa invernada Foram palanques e arame nessa empreitada E para erguerem esse galpão sólido e seguro Foram necessários esteios de cerne puro Perpetuando uma estrutura sólida e inabalada.
Passado e futura estão sempre presentes Revividos a cada novo alvorecer, Reverenciado a cada dia um renascer Nos ideais da nossa tenra juventude Que assumiu a verdadeira atitude Em defesa de tudo aquilo que é raiz, Que é bandeira em seu símbolo e seu matiz Da pura seiva desse relicário de virtude.
Vinte e dois rodeios fizeram sua história E o vigésimo terceiro nos faz chamamento Para que todos nós, neste momento Venhamos reforçar nossos laços de amizade Ao se abrirem as porteira da nossa Cidade Como se irrompessem o túnel do tempo Num eterno remotivar de congraçamento Que nos fez “ Capital da Hospitalidade”!
Assim é o CTG Porteira do Rio Grande: Um verdadeiro “Palanque do Passado” Cuja existência nos deixa por legado O chimarrão patriótico da confraternização Desse mister xucro como apologia à tradição Vanguarda d’um tradicionalismo ainda puro Porque aqui se plantou o “Esteio do Futuro” Para motivos do poeta em sua exortação.
Segue cavalgando “Lendário Porteira” No lombo desse bagual chamado Tempo, Segue trançando esse laço, tento a tento, Para a grande armada nos campos da existência Segue cavalgando altaneiro nesta querência Verdadeiro continente, desprovido de fronteira Segue reunindo o povo nesta lida campeira Uma vertente gaudéria de legítima essência.
Rendo a ti meu peito de poeta Escrevendo estes versos numa homenagem singela Escavando um coração sem portão e sem cancela Como as varas da tua porteira beijando o chão; É o Rio Grande de braços abertos e, nesta oração Chamando a todos: “se aprocheguem mais perto” E na hercúlea grandeza deste gesto Uma reverência simbólica da cuia passando de mão em mão!