Pranto do Arroio à Lavadeira
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A correnteza é a lágrima que choram, as pedras mouras do porto das lavadeiras...
Murmuram, os salsos tristes, os salmos de outras saudades que, o tempo, fundiu ao pó... Na branca espuma viajeira foram levadas – pra sempre – as penas da lavadeira... ...nessa constância do arroio, de sempre andar e ser só...
Maria encontrou o arroio desde muita tenra idade... O arroio encontrou Maria bem antes dela o achar... ...e uma vida companheira de um encontrar-se no outro, passou... sem ninguém notar... Um em som e movimento... ...o outro em canto e lavar...
O arroio, como um amigo que sabe escutar calado, foi parceiro de alegrias... ...amparo nas agonias... ...fraterno pra todo mal... Chorou junto com Maria, levando soluço e lágrima fundidos ao seu caudal...
E como um terno maestro da orquestra da natureza, que escreve as notas na pauta de um pentagrama de areias, também cantou com Maria... ...no vento que agita os salsos ...no doce bico dos pássaros... ...na estridência das cigarras... ...no entrechoque das cachoeiras...
E soube ser testemunha do romance que nasceu, quando Maria bateu a vida na roupa suja de um tal Maneco Rodrigues - um domador de mão cheia! - E o mesmo arroio andarilho fez-se canção de ninar... ...e berço os galhos do salso... ...pra’os filhos da lavadeira...
E a vida – como o arroio – no seu eterno passar... ...refletiu a espuma branca dos cabelos de Maria no leito claro do rio... E um rosto – cheio de rugas – adquiriu semelhança à erosão das barrancas castigadas pelo estio...
E quando um dia, Maria, deixou de vir ao arroio, manifestou-se a agonia, de um sofrimento incontido, de quem cansou de calar... Nessa constância do arroio, de sempre andar e ser só, o arroio pede a palavra, pois necessita falar:
-Onde andará a lavadeira que, durante tanto tempo, sofreu e cantou comigo?... ...lamenta, triste e soturno, à suprema onipotência...
-Eu sou espelho de muitos, mas os olhos de Maria eram espelhos pra mim... ...se ela calava... eu calava... ...se cantava... eu respondia... ...por onde andarás, Maria, que não te descubro o fim?...
O pobre salso –coitado- por ter mais choro que o nome, de tanto chorar, morreu!... ...resistiu a muita enchente e outras obras do destino... mas, na perda de Maria, também, ele, se perdeu...
-Por onde andarás, Maria, que era tão triste como eu?
-Não levo mais tuas lágrimas, fundidas ao meu caudal...
...não mais acompanho as notas que soltavas, rumo ao pó...
...sigo, triste, este caminho que me resguarda o destino...
...nesta constância de arroio, de sempre andar... e ser só..