Quando o Sul Rodou nas Rodas das Carretas
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No princípio... Foram patas de cavalos Que afundaram trilhas pelos campos virgens E ombrearam rumos, difundindo origens, Para a geografia de um Rio Grande outrora. Foram passos e patas de um "vagau" centauro Que amadrinharam esse gaúcho tauro Para a exuberância do Rio Grande agora!
Logo depois, então, veio a carreta... Incompreendidos chiados e lamentos, Pois foi para esse choro em movimento Que o pago primordial pediu carona E do camarote rude de madeira Viu surgir a pátria brasileira Sobre essas rodas rudes e choronas!
E vieram rodas... E mais rodas... O ferro do trilho e o cepo do dormente Cortaram o silêncio do campo, de repente, Diminuindo a distancia e os espaços! Com rabanadas de rangido e graça, Trasportaram o taura em rodas de fumaça, Qual centopéia com o lombar de aço!
Um cavalo medonho e roncador, Com patas de borracha e com motor, Passou a ser mais guapo e estradeiro, Levando o gado pra longe da invernada, Sem gritos de "eira-boi" e sem pousadas, Acabando com os ofícios do tropeiro!
E a roda rodou as engrenagens do progresso... Impulsionando as asas dos aviões E decretou a falência dos galpões Que tinham por rodas só a de mates! Mudou o visual dos conflitos e das lutas, Acirrou a ganância e as disputas Com outras formas apocalípticas de combates!
Mas a carreta... Ah! Essa é eterna! E sempre viverá em nossa memória, Como quem escreveu as páginas da história, Que esse Sul legou para o amanhã. E, mesmo carcomida nos museus, Será o símbolo da humildade dos plebeus, Que proscritos em guerras de titãs!
E quando o mundo rodar em "megabytes", Pela virtual carreta das distâncias, Alguém irá lembrar que nas estâncias De um Rio Grande, que há muito já se foi, Uma picana no lombo, que era moda, Cutucava o progresso sobre as rodas, Que choravam na tração lerda dos bois!
Por isso peço à geração que agora assume, Com outros valores e meios de transportes, E que têm na educação os seus suportes Conquistados nos bicos das canetas, Que não deixem de explicar para seus filhos Que todos somos partes desses trilhos, Deixados pelas rodas das carretas!