Quero-Quero
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Emplumado sentinela Que ronda a noite da\ pampa Retratas em tua estampa De monarca das coxilhas Um campeador de tropilhas A rondar na noite grande Nos campos do meu Rio Grande A alma dos farroupilhas.
Tens o fado do mistério Que em teu canto preconizas Tens a noção de divisas De pátria e de território No trabalho compulsório De camperear nas planuras Vais registrando escrituras Que não se lavra em cartório.
Quando à noite abres o peito Teu canto é um grito de alerta Que o pago inteiro desperta Como rufar de tambores Denunciando os invasores Que entram sem pedir licença Pra devastar a querência Ao ronco de mil tratores.
És testemunha da história Feita a casco e boleadeiras Na patrulha das fronteiras Montaste guarda e vigia Pra que em cada sesmaria Na têmpera da garrucha Forjasse a raça gaúcha De estirpe xucra e bravia.
Vistes surgir as revoltas Contra o domínio central Porque o Rio Grande, afinal, Foi sempre o esteio mais forte Foi coluna e foi suporte Da pátria que foi madrasta E até hoje ainda arrasta Nossas riquezas pra o Norte.
Ouvistes na noite grande Gemidos de almas penadas E ao rigor das geadas Nos ranchos gemendo o vento Confundindo-se ao lamento Do paria humilde sem teto Órfão de herança e de afeto Excluso do testamento.
Contemplastes com tristeza O corte dos pinheirais E a tribo dos ancestrais Tornar-se pobre e errante Num sistema que garante Em favor do chefe branco Jogar seu povo ao barranco Da miséria degradante
A paz que existe é disfarce Porque há uma guerra presente Expulsando a nossa gente Do campo para a cidade Condenando à crueldade Das favelas sub-urbanas, Em condições desumanas À margem da sociedade.
É por isso que hoje vemos Os descendentes charruas A vagar por todas ruas Changueando ilusões no povo Quando penso me comovo Me vem um pó na garganta E a minha voz se levanta Em busca de um tempo novo.
Eu quero ainda ouvir teu grito Prenunciando nova aurora Ouvir tinido de espora E galopar de tropilhas Que do alto das coxilhas Desensarilhem-se as lanças Em defesa das estâncias E dos ideais Farroupilhas.
Que a alma de Tiarajú Mais forte e mais altaneira Empunhando esta bandeira Com galhardia e entono Desperta do eterno sono Lançando o brado de guerra Aos quatro cantos da terra Que o Rio Grande ainda tem dono.