Alma em Verso
Poesia

RENASCER

Antônio Augusto Ferreira

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O passado foi de sombra, uma noite longa e triste, noite funda como a morte, tão noite que não termina, sensação de quarto escuro, de lembranças como bruma, que essa noite aguda e turva dura mais de meia vida.

No meio da treva densa há lembranças como bruma que se evolam da fumaça dumas ervas que se fuma. Tanta coisa vem à tona pra quem vai chegando ao fundo, mas nenhuma traz o lume que acenda outra vez o mundo.

São lembranças muito agudas e maltratam o silêncio que há no descaso da vida de apenas seguir vivendo. O dia não amanhece pra quem quer fugir da culpa e a claridade machuca nos intervalos da fuga.

Consolo vem da fumaça. Será deveras consolo? A tontura que embriaga é barco andando de borco. No começo... se era lindo! Beber é coisa pra macho. A coragem fica fácil e mais erguido o penacho.

A vida escorre pro boeiro como chuva de sarjeta. Sonhar-se herói num momento, herói pelo tempo inteiro. Mais uma vez a fumaça turva, nubla e curva a fronte, dobra a última vontade e não recobra o respeito.

O que se pode fazer na dor fininha da agulha, no delírio da viagem que sempre acaba mais turva? No corpo suado e sujo morre a flor da primavera, desparramando os destroços pelos mais baixos misteres.

O que fazer co` a família? Chorar nas horas de crise, dissimular o problema fingindo que não existe rebelar-se a compromissos tirando o corpo da culpa, submergir no silêncio como a queixar-se de tudo.

Um dia bateu na mãe, a droga venceu de novo. No braço descarregava a culpa toda nos outros. Não entendeu o tumulto nem a agonia do choro.

Um dia, um dia é preciso que a razão se estabeleça: foi um tabefe de pai que o fez virar a cabeça, que o fez dar a meia volta e ver que a porta da rua é a serventia da casa.

Agora é o fundo do poço, ou nada, ou morre afogado. Não há mais um braço amigo que o arranque do buraco.

Não se sabe quanto tempo andou vagando na febre, andou negando-se à morte que está no fim do caminho dos que navegam sem norte.

Não quer morrer, dá-se conta, reúne todas as forças contra o naufrágio da vida. Então começa a aprender a equilibrar-se sozinho, repugnando o ilusório socorro que vem do vicio.

Foi ai que viu nascer as barras de um novo dia. Depois de noite tão fria recomeça a amanhecer.

Mas a noite continua para outros desgraçados que têm uns pais Joao-sem-braço incapazes de cobrança, mas nem que seja um tabefe que os faça dar meia volta e achar a porta da rua que é serventia da casa.

Se a culpa é de quem fraqueja também é de quem se omite e não reúne coragem de enfrentar o mal co`o filho, achando o momento certo de repô-lo na razão. As vezes, faltando um grito vai pro mato um boi fujão.

Quem voltou traz olhos fundos e os estilhaços no corpo das batalhas que sofreu. Só que agora chora à-toa por um nada se emociona, mas tem também um sorriso e a vontade de viver.

A porta que foi saída é a mesma de volver. Deus é pai – louvado seja. Aquele que esteve cego voltou a ver.