Alma em Verso
Poesia

Retrato das Quatro Moças

Joseti Gomes

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Quatro moças perfiladas posavam para o retrato... Quatro desejos distintos sob a estampa colorida... Quatro olhares pra vida, sem traços de sofrimento... Uma lente revelando quatro moças bem vestidas...

A mais nova era morena, olhos de fundo de poço... Segredos mui bem guardados na aparente calmaria... Pra quem conheceu Luzia pouco falou-se da cuja ali, com os pés descalços, sem vaidade ou rebeldia...

Tereza olhava o incerto, talvez prevendo o destino... Luvas cobrindo os dedos que bailavam pelas cartas escritas nas madrugadas, onde corujas curiosas espreitavam sorrateiras uma entrega encabulada...

Rosário, em dentes miúdos, sorria um risinho bobo... Cabelos em desalinho, voando no campo em flor, pura, dos traumas da dor, livre, tal qual sua alma, ignorando os olhares da cobiça e do amor...

Mas eram quatro, as moças... E foi de fato, em justiça deixar pro fim o registro de dar nome a rapariga... Chamavam-na de Marica, sem medo de temporal... Era o próprio vendaval roubando a paz e as vidas...

Todas as quatro, aprumadas, sob a parreira madura. Todas vendendo respeito como pedia o momento. Quatro certos casamentos que nunca aconteceriam, pois as quatro se negaram aos freios dos sentimentos...

Cada uma com sua sorte conforme as quatro estações... Luzia foi-se com as folhas, que amadurecem no outono... Tereza, não teve dono, vendendo cor e perfume... Rosário se fez fumaça nos verões de muitos anos...

Porém ficara a Marica emplumando suas asas... Na sombra em frente à casa prevendo seca ou enchente, era a tal presença ausente que uiva em noites escuras, perdida nas madrugadas, que deita junto co'a gente...

Marica era um assombro desses que quebram silêncio... Gritos de almas penadas, era sonho e pesadelo... Tinha um ruivo nos cabelos ardendo junto a ferrugem que pintava a pele branca, na plena ausência de apelos...

Qual o destino das moças? Talvez desviar caminho dos que colocam cabresto... Talvez sequer ter destino num mundo tão masculino onde casar e ter filhos era a decência das casas nos vastos campos sulinos...

Quatro moças bem vestidas posaram pra um retrato, que agora enfeita a parede da tapera abandonada... Quem passa nestas canhadas, não resiste ao chamamento, das moças, sem sentimentos, que são fantasmas, mais nada...