Alma em Verso
Poesia

Romance da Quero-Mana - Maximiliano Alves de Moraes

Maximiliano Alves de Moraes

17º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em

Prestativo igual a ele Não havia outro! Sempre pronto pra quarteadas: Rodeio, alambre, tropedas, E alguma pega de potro!

Quando o grito de ajutório Batia à porta caiada Do rancho humilde do posto; Na esquina da quero-mana Um mouro pisava a estrada,

Fosse janeiro ou agosto! O lenço rubro ao pescoço Talvez já fosse o sinal De revolta adormecida, Como essas repentinas Que acometem as tropas Ao tornarem-se incontidas!

No mais, uma garroneira, Sempre de espinhos afiados. Passeadeira de paletas, Barrigueiras e virilhas. No braço, o pala de seda, Já de pontas esfiapadas, Um surrador nas boladas Das mais malevas tropilhas! As eras foram tranqueando... E agora, o antigo posto Não serve mais à estância! Estância, que por sinal, Nem ela mesma é estância! É "mar bonito" de planta, Que afoga alma e garganta De um posteiro em sua ânsia!

Nunca alguém lhe perguntou, Talvez por isso não disse. Que o sonho para a velhice Era não deixar o posto. Era viver no seu mundo, Bom cavalo, rancho, cusco E a benquerença dos outros!

Mas ele, que viveu solito, Tendo por maior princípio Servir a todos com gosto, Sentiu -se dono da estrada, Sentiu-se dono de nada, Ao ser "varrido" do posto. Esbarrou bem frente ao rancho A roncadeira brilhosa Com suas patas macias. Desceu o doutor das terras, Já com a firma da lei Pintando a carta despejo, Ante uma cerca caída! Caiu também o ricaço, Depois dos quatro balaços, Já se apartando da vida! O lenço rubro ao pescoço Talvez já fosse um sinal

De revolta adormecida... E mouro mais uma vez Pisou a estrada com garbo. Mas desta, já sob a rédea De uma revolta acordada Ao canto de um fado amargo! Apeou frente ao bolicho, O mesmo que nos domingos Fazia correr o osso E estendia o tirador. Um sorriso debochado, Desses que zombam por dentro. E o trinta fala de novo Debruçando o zombador!

E os outros que lhe pularam, Talvez fregueses da venda, Por verem cena revolta. Estes sentiram o aço Da prateada carneadeira, Um, sobre a carpeteira, O outro, ao sair na porta! E a estrada, mais uma vez, Sente os cascos do buerana... Agora, já com a imagem

De uma poeira comprida Desenhando a quero-mana! Basta a sorte ser contrária Para o bom e servidor Se tornar um desertor De suas convicções! Basta a morte imaginária Dos sonhos que a alma tem Pra tornar morto também O melhor dos corações!

Nossa lei, nós a criamos, E nesta lei dos humanos Julgar é a pior condição! Matar é crime medonho! Mas e a chacina de sonhos, Não merece punição? Depois de posto e bolicho A estrada contou delitos Que não cabem em seus ramos. Triste história do destino De um posteiro proscrito Que se derrama nos anos!

Quando alguém pede ajutório Pras bandas da quero-mana, Recende um ar de tristeza Dos lados do velho posto. Mas o mundo é bem assim A morte é da vida humana Pela lei da natureza, Seja janeiro ou agosto!

Não se sabe o paradeiro Do posteiro malfeitor. Se ainda anda nas cruzes Do velho mouro garboso Ou se na cruz de algum pouso Boleou a perna da vida. Por revolta adormecida Como essas repentinas Que acometem as tropas Ao tornarem-se incontidas!