Romance do Domador
Publicado em
Foi domador, como tantos, mas domava como poucos. Do berço trouxera a sina de ginete e “saidor”; porquê ginete se nasce - o demais, a vida ensina.
Nunca deixou balda ou manha num cavalo que domasse. E, embora até gostasse que o potro escondendo o rastro chairasse a língua no pasto; ou que procurasse um jeito de se bolcar velhaqueando, para sair caminhando, sem o soltar do cabresto - jamais procurou pretexto para exibir sua destreza. Pois, sabia com certeza que o que é bom já nasce feito!
E costumava amansar com cuidado e com paciência - que nisso está toda a ciência dessa arte que é domar.
Tironeava com o jeito de quem conhece o que faz - pois não é puxar demais que deixa um bagual “sujeito”!
Sempre andava bem montado, em carreirada ou rodeio, e mostrava orgulho nisso. Tinha pingo pra um passeio, tinha pingo pra um serviço. Índio sério e caprichoso para as pilchas e os aperos; Alegre, bom companheiro - sempre, em qualquer circunstância- sabia dar importância ao menor dos compromissos. Tinha a sorte linda e mansa, até que a vida, passando, cambiou seu rumo, chamando com cincerros de esperança.
Então se alçou, a ave migratória. Deixou os pagos, pra mudar a história, com o destino apresilhado aos tentos. Seu pala branco, obedecendo os ventos, foi prolongando aquela despedida; insinuando nesse adeus, tão lento, que se afastava para toda a vida.
O coração por sinuelo- apartou-se de seu chão. Como tantos, de outros pelos, que até em buçais de cabelo cabresteiam a ilusão!
Foi sofrenando a saudade das potreadas lá de fora e se habituou, sem demora, aos costumes da cidade.
Tirou dos pés as esporas, não montou mais a cavalo. E, já no primeiro pealo que o agarrou sem dinheiro, foi despilchando os aperos que, com orgulho, luzira.
E até parece mentira que esse taura dos arreios, que foi touro nos rodeios, respeitado na querência, se enredasse na cidade, lonqueando necessidade pra retovar a experiência.
E quando era chegada a primavera - a passarada toda em cantoria, entoando um hino de louvor ao dia, como a cantar o encanto de viver- exilado em seu rancho.
Voltava, então em sonhos, a querência. Cruzando o pampa imenso em florescência, abria rumos, pisoteando orvalho. Respondendo, outra vez, como um soldado, ao clarim de alvorada do trabalho. Via- ferido a cascos e arado- sangrar fartura o pago, à sua gente, nas cargas dos rodeios de seu gado, nas trincheiras da terra e da semente!
Num desses momentos sentiu, sem querer, que um “duro de queixo” podia chorar.
Num brilho crescente de alvorescer, as lágrimas quentes nasciam a tremer, vertidas mansitas de seu coração. Qual gotas de orvalho a rolar, cristalinas, correndo... estacando na ponta das folhas... pendendo, luzindo... pingando no chão...
Contam no pago, que no outro dia uma silhueta avultava ao longe, contra o clarão da aurora que surgia.
Era outra vez, a ave migratória que despertara com a primavera; Retornava ao rincão que Deus lhe dera e que nunca apartara da memória. Ia curando, já no esquecimento, as feridas do próprio coração.
Apenas guardaria na lembrança, Para o resto da vida, esta lição; Aprendera nos bretes do arrabalde que o que nasce com alma de campeiro - como a calhandra- canta em liberdade, mas- por gaúcho nomais- no cativeiro vai definhando... e morre de saudade!