Romance do Negro Viriato
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Viriato olhava pra terra preta Como a olhar pra si mesmo... A cova – moldura de espelho – Refletia o rabisco das entranhas, Deixando à mostra o avesso da vida... Quadro negro pintado pelo destino, Em cenas romanescas de cores cruas!
As forças governistas... A coluna do General Zeca Netto... A Revolução...
Pegar em armas Era lutar por um bem comum... Sepultar companheiros Era ato de compaixão... Era poupar irmãos das aves carniceiras, Elas alçavam voo depois do festim, Mas ele permanecia acorrentado Á Via Crúcis de sepultar homens E suas histórias... Quantos homens? Tantos, que perdera a conta...
O Alcides do compadre Terêncio, O Honorato da Madalena... O cabo Chico... Chico velho de guerra! Sempre o primeiro da linha A tomada de Pelotas! Arrancos de valentia... Pelear mano a mano com a morte, Pra morrer numa cancha de tava, Entre o culo* e a suerte*... Mísero osso... Maldita jogatina! – Descuido entre cadeiras e gargalos E as mãos tintas de um covarde clavaram* Semente de morte naquela garganta! –
E a suerte*? A suerte* campeava plagas distantes, Talvez só timbrasse livros antigos, Romances de bandoleiros e coronéis, De amores proibidos e seus caprichos... Leonel roubou “noiva” na calada da noite, E pra confirmar mais o matrimônio que O afronte, recebeu tocaia e descarga de fuzil...
Nas tardes domingueiras, Corriam pencas, tragos e bravatas... Sorte ingrata do Caetano, Sina de tirar barda de ventena, Sentar basteira em malínos A cabo de mango e puaço de chilena E não domar o mais arisco dos fletes: O pelo duro do próprio destino! A vida... Suas fatalidades... Foi uma perdiz e um cavalo passarinheiro... Foi a força do pealo a invocar uma Cruz!
Sabe-se lá por que Deus chamava os pequeninos... Margarida era bonequinha de pano Num caixote de tábuas carcomidas... Clausura para ingenuidade angelical... Riqueza de quem tinha por posse, os ventos, O amargo da vida e o pó dos corredores...
O suor pingou no fundo da cova E ainda faltavam dois palmos... Lembrou-se da parteira Setembrina, Cortejo simplório da velha que Gineteava uma cadeira de balanço, Esquecida num rancho tapera... Quantas vidas passaram por suas mãos? No caixão, a tesoura antiga, Para partir o cordão – elo – Com esse mundo primitivo...
Estranho era levarem chapéus, Garrafas de canha, Relógios, bengalas... E revólveres? Seria pra caso de “precisão”? Segundo diziam, O diabo é muy caborteiro...
Como negar o último pedido Ao próprio pai? O velho queira faca prateada, Maço de palha nova E um naco de fumo bueno Pra pitar na viagem...
Uma rajada de vento Ringiu galhos da figueira grande Faiscando prateadas barbas de pau... Aflorando o passado...
O Bigodão do general Zeca Netto... ... O olhar profundo... A revolução... ... Eclodiu o estampido das metralhas... ... A voz do general: “Ali, no flanco direito!...”
Viriato ergueu a cabeça Mirando o rumo da capela, No ar um silêncio fúnebre... O cortejo, choramingos e rezas... A guerra sumia soterrada Pelas tristes ladainhas... Sabia que era somente trégua Que os fantasmas da guerra voltariam A povoar sua memória...!
Conformado, Continuou a cavar o próprio destino Que entrincheirado acabaria numa cova!