Alma em Verso
Poesia

Romaria

Luís Lopes de Souza

V Querência da Poesia XicraPublicado em

Joelhos rotos vão semeando gotas rubras no trajeto de tortura e de louvor, a carne viva cada vez fica mais viva num martírio que exorciza a própria dor.

As promessas se glorificam sem pressa amparadas pelas tropegas passadas no sagrado alumbramento do caminho... Urgem pelas graças suplicadas ladainhas e terços sussurrados no cortejo de campeiros peregrinos...

São terríveis as amargas que digerem nas entranhas de uma vida inconsequente, olhos fitos na imagem venerada empurrados pelo transe reverente... São lentos os rumorejos das preces e rudes as oferendas no andar, são corpos de carnes mortificadas que o fracasso já cansou de castigar...

São devotos despilchados do meu Pago. Rogai, rogai por eles Minha Santa...

Os dedos que se cruzam são judiados e tremem os movimentos das mãos calejadas pelos cabos das enchadas e por cepas cambaleantes dos arados, mas bonitas em postagens de oração...

São lerdos os braços descarnados que domaram bois de cangas e cavalos, embrutecidos pelos golpes quase férreos no manejo de marretas e machados, mas são fartos de forças e vigor pra levarem por divina recompensa o seu trono imaculado no andor...

Não sabem os porquês de suas fraquezas... Não sabem os porquês de suas desgraças.... São refugos extraviados de uma raça renegados pelo tempo e pela sorte... Ignoram os porquês de seus pecados e ignoram os porquês da própria morte...!

São terrunhos despeonados do meu Pago. Rogai, rogai por eles Minha Santa...

Clamam espíritos moribundos no percurso penitente percorrido... Batem os distúrbios do desgaste na engrenagem dos membros corroídos... Gritam malsinados pecadores que o descaso condenou por esquecidos...

... se erguem as carcaças que sucumbem no rebojo de um dormente desatino. ... se propagam os pedidos de perdão nos percalços do milagroso caminho. ... os lamentos de aleluias repercutem nas estocadas pontiagudas dos espinhos...!

Arames farpados cingem consciências pecaminosas... Punhais de erros judiam corações arrependidos... O lenho das cruzes cala sobre as feridas dos ombros e o próprio orgulho rasteja esmagado pelos tombos...

São os parias desvalidos do meu Pago. Rogai, rogai por eles Minha Santa...

São meus joelhos que semeiam gotas rubras no trajeto de tortura e de louvor... mas prossigo contrito e resignado arrastando o meu fardo de pecados que me enche de remorso e de pavor...! E queima a minha alma em sacrifício ruminando os porquês de sua miséria... - esta alma só despertou para a fé quando a dor se apoderou da matéria -

Rogai, rogai por mim, Minha Santa... E intercedei junto a Deus pra que eu alcance um perdão, pois nunca usei para o bem as virtudes que Ele me deu...

... se é que existe perdão pra um errante como eu..

Crédito da fonte: Luiz Lopes de Souza