Alma em Verso
Poesia

Em qual porto

Rosângela Rosa

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Se um dia eu fui semente, Semeada sem querer Se não pude escolher Entre nascer ou morrer, Eu habitei o teu ventre.

Ali eu fui aninhado, Por horas, quem sabe dias, E mudei tua geografia. Eu em teu ventre crescia, Pra ser um dia aportado.

Mas o que eu não sabia Em qual porto, nem a hora? Pois tua alma senhora, Já havia ido embora Enquanto me concebia.

No teu puro egocentrismo Nas loucuras do prazer Querendo viver, viver Não conseguiu perceber Que regavas o egoísmo.

Alimentava sem querer, O fruto de teus desejos, Eu era o teu segredo Teu presente, teu brinquedo Nas entranhas de teu ser.

Um dia me descobriste Eu no ventre estremecia, Eu te amava noite e dia Seria tua alegria, Mas senti que estava triste.

Chorei teu pranto, tua dor Sentindo teu coração, Que cego e sem compaixão Sangrava sem ter razão, Não queria meu amor.

Resolveste me parir Expulsar-me de teu ventre, Matar e punir semente, Num ato tão displicente Eu deixava de existir.

Hoje eu vim te contar Que senti naquela hora, Tu me mandavas embora, Eu já amava a senhora Eu não queria aportar.

Fui golpeado em teu ventre Te confesso agonizei, Por teu perdão implorei, Em minha alma guardei, A dor que hoje tu sente.

Fui apartado de ti, Abortado sem querer, Sem direito de nascer Fui condenado a morrer, Por isso que estou aqui.

Sou parte de teu passado, Deveria ser presente. Mesmo eu sendo inocente Por não ter alma de gente, Por você fui condenado.

Em qual porto? Qual a hora? Eu não pude decidir, Entre aportar e existir Entre ficar e partir, Por ti fui mandado embora.