Coração de Mulher
Publicado em
Vem o verão de seus dias, num casamento em rituais Mas não vem a liberdade, pelo contrário, a sociedade ainda lhe prende mais!
Torna-se dona de casa e das rusgas de um marido, que só lhe fala ao cobrar: - onde estão as bombachas? o lenço está mal passado! minha mala de garupa necessita de um remendo p'ra carregar os avios... - Faz um bife, bem passado, mas não carrega no sal!
Aprende até a ser ginete, para domar tanta ausência de quem insiste em amar tricotando em noite calma, tantos remendos na alma, que nem vê o tempo passar.
Vem o filho, pequenino... Vela uma dor, insistente, sem dar tréguas para o sono. Faz, com jeito, um sapatinho, ensina, sempre os caminhos das faculdades da vida.
Até o filho, quando adulto, na hora do desespero, corre p'ra mamãe querida.
Pelo mundo ainda tem gente a reafirmar que as mulheres carregam medo de tudo. Um coração de mulher é um misto de bem-queranças, de fadários e renúncias... Só nessa imensa grandeza há de renascer esperanças!
Ante o olhar de sua mãe o culpado se redime... como pode haver o crime, onde uma mãe planta amor?
Os dias sempre são longos e as noites sempre pequenas...
Menina, cuida as bonecas! ...como quem cuida um adulto. Olha o maninho pequeno, que se manda, engatinhando, e insiste tanto em “dandá”!
Não vá brincar com os guris, por que esse povo repara! Não senta, assim, enganchada, fica feio ... fica feio!
Passa o tempo, fica moça, cabelos longos... bonita! mas prenda de sociedade jamais pode andar solita; o povo também repara, pois toda moça direita anda com a mãe ou o pai!
Mas a vida desabrocha, como a flor da sempre-viva, em cores primaveris... Os olhos desbravadores, colhem tantos horizontes que o mundo fica pequeno para guardar seus anseios.
Um namorado bonito, desejado pelas outras, era o motivo de espera, a cada fim-de-semana. Espera ... espera ... espera... e os olhos secam, na estrada.
- Não podes ir ao galpão, onde a peonada mateia! Nos bailes, ali cativa, esperando o peão convidar.
Lá na venda, um forasteiro, aventura-se, em galanteios, e logo o primo Lautério topou aquela parada: - a moça é de família e homem, quando bem homem, não falta com o respeito, ainda mais com sexo frágil!