Razões de Partir
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É ainda de madrugada, E pelas frinchas do rancho Vejo um clarão que se espalha Pelos caibros do galpão É o clarão das labaredas Que são flâmulas douradas qual bandeiras coloradas Sobre o mastro de um tição.
Levanto, desço, e da escada, Vejo que é grande a geada, O pampa é todo silêncio, Abro a porta bem com calma E encontro a olhar o brasedo Um velho que não tem medo De prosear com a própria alma.
Seu rosto é muito sereno, E a cuia de chimarrão Aninhada em sua mão, È como um troféu de lutas Ostentado com entono. Pra mim é mais que um herói, Foi ele que me ensinou A ser o jeito que sou, Livre, qual potro sem dono.
Me chego, sento e me ponho A falar bem despacito, Olhando os flecos bonitos Das franjas das labaredas. Há uma magia tão grande Neste fogo de galpão Que nos traz a inspiração com asas feitas de seda.
Meu velho pai, nesta noite, Meu sono também se foi, É como um carro de boi Que dobra o último cerro Pra se perder na distância. E eu fiquei acordado Remoendo sonhos e planos, Pra quem tem pressa dos anos A noite é uma criança.
Eu sei que é grande a surpresa De ver-me assim deste jeito Mas é que aqui no meu peito, Bate forte um coração. É um potro que corcoveia Que se boleia e se prancha, Relincha pedindo cancha Como o dono do rincão.
Sabes meu velho, faz dias, Que ando a pensar no que faço, Aos poucos vejo o cansaço A bater na sua porta Rondando sua existência. Já não és o mesmo moço Embora traga nos tentos Trançadas de sofrimentos Muitas braças de experiências.
E eu que ainda sou piá, E tenho a vida pela frente Neste mundo diferente Que se torna mais selvagem A cada dia que passa. Já me sinto no dever De encilhar meu próprio pingo E buscar meu próprio rumo Como um sinuelo da raça.
Porém não quero que entendas Que vou porque sinto falta De coisas sem importância, Mas é tão grande esta ânsia Que já não posso conte-la.
E na hora em que a boieira Surgir pras bandas do Norte, Lhe peço que sejas forte Pra que eu não ceda ao instante De dar adeus e partir. levo a mala de garupa, O poncho, a pilcha e o relho, Levo também seus conselhos Que vão comigo onde eu ir.
Quero buscar lá de novo As razões de tantas coisas Que não consigo entender: Pra alguns é dado o poder E o direito de mandar Como donos da querência. Mandam nas Leis e consciências, Fazem crer que ao seu valor O povo deve favor, Servidão e obediência.
Vou lutar pra que algum dia Possa encontrar meu espaço, Mesmo que sangre meus braços E resseque a boca exangue. Vou lutar com alma e sangue Pra que os mandantes chefetes Saiam de seus gabinetes E venham montar num pingo E andejar pelas coxilhas Conhecer as maravilhas Que existe neste Rio Grande.
Talvez assim compreendam O que de belo ainda existe O que aos rigores persiste E ao fulminante processo. Talvez decretem recesso Á desgraça que semeiam E á devassa que incendeiam, Com pretextos de progresso.
E um dia quando eu voltar Neste chão onde eu nasci, Onde pude ser guri E correr num campo aberto, Hás de encontrar-me, por certo, Transformado em homem feito. Mas há de ver que o respeito, E o amor por este pago São compromissos sagrados Que estarão sempre por perto.
E neste dia, quem sabe, A consciência mais madura Traçarão nova escritura Pelas leis da tradição. O direito e a razão Serão enfim, estendidos, Aos miles guascas sofridos Nos cinturões das cidades onde não tem liberdade Nem viver de cidadão.
Aí então, neste dia, Quando justiça e igualdade Forem a pura realidade Que tanto o povo sonhou, Com teu orgulho de taura E a voz que ao pampa se expande Podes gritar ao Rio Grande Que o teu guri triunfou
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