Alma em Verso
Poesia

Tributo a saga da mulher gaucha

Sebastião Teixeira Corrêa

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Olhem a serra, e verão aquelas, Com traços de além-mares, Que plantaram povoados e pomares, E tem no corpo ainda as cicatrizes, Da forja e da bigorna, Resistindo à dor e ao sofrimento, São hoje, vivos monumentos, Que, erguidos em reverência, Simbolizam o passado e o futuro da querência.

Olhem os campos, verão silhuetas grisalhas, Peles ainda tostadas de muitos verões, Semblantes lusos, olhos sebrunos, Esgueirando-se nas casas velhas, Irmãs Gêmeas dos ranchos e taperas, Que alheias ao tempo desafiam as éras, Nas lides perenes dos fogões.

Essas xiruas ainda são legendas, Que, cultuadas nos saraus de prendas, Perpetuam-se nas novas gerações.

Procurem nas estâncias, E encontrarão aquelas, que puderam ver o mundo. Apenas das janelas das Casas Grandes, Onde passaram a vida, A pele escura, como que tingida, Pela mão da noite. Essas mulheres tristes e sofridas, Com seus desejos e âncias reprimidas curaram com lágrimas as feridas, Dos filhos, judiados pelo açoite...

E existem também, pelas favelas, Nos ranchos povoeiros, Desconhecidas heroínas de todas as origens, Morrendo aos poucos, pelo abandono. Que Rio Grande é esse? Que homens somos nós? Quando jogamos na dor e na miséria o próprio sangue de nossas artérias, Na imagem santa das avós!

A força, a tenência, Esta coragem singular do campeiro, De não temer, por grande, o entreveiro, Nos vem dessas mulheres que são de carne e osso, Mas também de aço, temperado ao rigor.

E esse progresso que o Rio grande ostenta, Vem da fibra daquelas que souberam, Ser parceiras, amigas, companheiras, escravas de ideais, Em verdadeiras concessões de amor.

Ê por isso que hoje, Precisamos honrar esse legado, Resgatar os feitos do passado, Reescrevendo as páginas da história, Porque a nossa gloria. Nasceu da estirpe guerreira da mulher gaúcha!!!

Nos relicários dos museus da história, Onde se perfilam os medalhões, De ouro, prata e bronze, E onde se tem a dimensão exata, Das honrarias forjadas no metal.

O troféu de lutas, de combates, O meritório premio, Que enfeitou com galardões dourados, O peito dos valentes, Nos entreveiros e nos tempos quentes, Das peleias, das guerras e embates.

Critérios? - Bravura, valentia, Coragem de enfrentar de peito aberto, A fúria do algoz, Que, com ódio mortal se arremessa, Contra o bravo gaúcho, Que peleava por dignidade, Pela gloria de ser guapo, E pelo amor à terra.

Talvez tenha havido outros critérios, Que premiaram ideais nem tanto sérios, Ou heróis que nunca pisaram o campo das batalhas, Mas se os galões de ouro das medalhas, Distinguiram falsos coronéis, Por certo, o sangue derramado, Pelos anônimos mártires tombados, Lavou a honra manchada dos quartéis!

Porém, a história dos museus e livros, Não conta a saga da mulher gaúcha. A heroína, que longe dos fuzis, A comandar as lides das estâncias, Sufocando no trabalho as suas âncias, A distância dos homens que peleavam, Vendo brotar das sementes que plantavam, A esperança de vida, no regresso, E a contra peso dos fardos e das cargas, Os filhos, erguidos às ilhargas, Sustentaram nos ombros o progresso.

Quando os povoados se ergueram pelos vales, E derramaram casas pelos cerros, Ouviu-se o tinido da bigorna, Multiplicar seu som de puro aço, Domando o ferro ao peso das marretas, E ao amoldá-lo, em chapas circulares, Nos intervalos das rezas, aos altares, Transformá-lo em rodas, prás carretas.

Hoje, esta mesma história continua viva, Mas esquecida, pois não é contada. Talvez por medo de ser ofuscada, A imagem de herói que se criou.

A história viva esta naquelas mulheres, Centenárias muralhas, que desafiam o tempo, E continuam, legenda terrunha desta pampa, Basta bomber-lhes a estampa, Para notar o aço do seu cerno.