SEMENTE DE VIDA
10º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em
Numa manhã de setembro Um par de olhos tristonhos Emoldurou-se à janela Parecendo um quadro antigo.
Olhava tudo a sua volta Pousando o olhar pensativo em cada detalhe Pois precisava encontrar-se. Na vertente de água fresca Com transparência de espelho, Aonde a lua e as estrelas, vêm ajeitar os cabelos. E ficou a meditar... Onde parou o seu tempo? Quanto tempo isso já faz?
Olha demoradamente, como quem esteve ausente, Sem nunca ter se afastado... A morada, ainda a mesma, toda florida, enfeitada Como esperando por ela... Mas nunca saiu dali! Será que o tempo parou e ela nem percebeu Trancada dentro de si?
Onde o tempo ficou? Onde mesmo que a deixou? Naquela noite talvez... Quando da morte de um sonho, O mais amado de todos - somente ela sabia, Só ela pode sentir como doeu a partida! Morreu um pouco por fora, Por dentro sentiu-se morta Quando o viu naquela porta, dizendo adeus, num aceno.
Ela trancou-se pra vida, vivendo o mundo pra dentro. Nem a janela se abria, nem a voz se fez ouvir... Vivenciou todas as lágrimas, remendou cada pedaço De seu coração partido Quando sentiu que era hora De enfrentar seu destino, Secou o olhar dolorido, num jeito tão decidido Como quem parte pra luta.
A guerreira levantou-se, abriu de vez as janelas Descansou os olhos pálidos na mansidão da paisagem. Sua morada de sempre Sempre seu porto seguro. E agora mais do que antes, há de viver cada instante, Curar as suas feridas na paz de sua querência.
Olhando a branca roseira, que ela mesma plantara, Bem na entrada do rancho, já toda reflorescida Com suas garras de espinhos, Enroscou-se na cancela, como a impedir as partidas Ou perfumar as chegadas... Parece que até as flores entenderam-lhe os motivos Desse estranho mutismo, e a ausência repentina E resistiram a todas as intempéries, Pra esperarem por ela com coloridos perfumes! A natureza é tão sábia, entende a dor dos viventes.
Quantos dias, quantas horas ficou sem olhar pra vida? Quanto tempo? Ela não lembra Ou prefere não lembrar. Pois guardará dentro da alma essa saudade infinita Que não cabem nas palavras... E faz enchentes no olhar!
Guardou com calma e ternura As coisas que ele esquecera sobre um banco no galpão Um par de esporas já gastas, um chapéu torto, amassado Um par de botas batidas, uma gaitita sem voz... No velho fogão campeiro as chamas já se extinguiram Só restam cinzas no chão.
Ela engole o soluço, dizendo de si pra si Que a vida vale viver, mesmo que o mundo desabe, Que essa dor nunca se acabe Mesmo assim há de vencer. Resistirá certamente, há de fazer-se contente Há de voltar a sorrir!
Sim, muitos sorrisos virão, quando tiver em seus braços O fruto sagrado do amor que lhe ficou, Que a fez abrir as janelas para olhar o sol nascente Quando sentiu outra vida, desabrochando Com doçura em seu ventre!
Ela sorri e suspira, pois chegará breve o dia Que terá entre seus braços um anjo tão delicado Com mãozinhas de veludo pra acariciar-lhe o rosto E uma voz tão pequenina a chamar-lhe de mamãe Terá alegria maior?! Quantas canções de ninar brotarão dos lábios dela! Com embalos de ternura, E tantos milhões de carícias, em doces beijos maternos Pra ofertar ao seu filho!
Nem que o coração lhe sangre, em seus silêncios contidos, Há de engolir os gemidos, e a cada dia renascer, Pois sabe que tem agora uma missão a cumprir, Que a tudo se sobrepõe. Um frágil ser respirando A cada suspiro dela. Maior presente de amor que uma mulher pode ter. De ver crescer em seu ventre um anjinho abençoado Fruto do amor que ao seu lado,mesmo tendo-lhe abandonado, Fez outro sonho nascer, Deixando pra todo sempre, num olhar doce, inocente Que a faz chorar tão contente, E fez-se heróica valente,sempre pronta a defender, Acordando a fera bravia pra proteger sua cria, Nada a fará desistir. Esquece a melancolia, contando horas e dias Ensaiando a melodia de uma canção de ninar. Não se queixa não reclama, não teme mais o futuro Seu tesouro está ali... Nessa força imensurável de amor incondicional Que um coração maternal, carrega dentro de si!