Com o Passado a Cabresto
Fui puxando um mundo antigo... La dos fundões da querência E fui separando a essência Das coisas que me marcaram Das coisas, que me embretaram Nos corredores do tempo Por onde, o próprio vento Fôra tocando por diante E foi ficando distante De tudo aquilo que eu vi Que pela vivência aprendi Na tal cartilha da vida As coisas xucras da lida Do tempo que era guri. Eu vi o charque formando Da paçoca de pinhão, Eu vi socar no pilão Essa iguaria campeira Vi o queijo, a queijeira E o soro pra porcada Vi o leite gordo, a coalhada e o charque lá no varal Que obedecendo um ritual Virava então todo dia Pois assim se conseguia O alimento primordial. Eu vi a parteira chegando Com olhar de quem sabia, Vi a criança que nascia Num berro saudando o mundo E o sonho mais profundo De uma mãe se realizava E hospital... não precisava, Precisava sim, a parteira E a medicina campeira Na querência não faltava Eu vi, o mascate chegando Num: hô de casa! Tem gente? Vinha cansado o vivente: - apeie! Chegue pra diante! Espere por um instante, Que vou “froxá” a barrigueira, A mula é meia ligeira Mas tá cansada a coitada De tanto patear as estradas Ficou entregue, a parceira. Vi a bandeira do divino De longe... lá da coxilha, Parecia um farroupilha Com a bandeira farrada Caramba!!! Que gente guapa Era essa guapo festeiro Angariando algum dinheiro Para a festa desse santo Percorria os quatro cantos Da querência por inteiro. Vi o carro de boi rangindo E a dupla de “boi carreiro” Puxando água pro banheiro Pra banhar a gadaria Vi a carreta que saia Pra trazer o rancho da venda Vi o peão convidando a prenda Pra um bate pé de rancheira E um respeito de primeira Pairava por sobre a sala Nem uma briga nem balas Se ouvia na noite inteira Um dia... chegou o progresso E o interesse financeiro Devastaram o pampa inteiro Derrubando, poluindo As belezas se sumindo E sumindo o homem do campo Se embretando em qualquer canto Pelos bretes da cidade Sufocando mil verdades E chorando o pago santo Os anos...foram passando... Mudando a arte campeira Depois... não vi mais parteira Nem bandeira do divino Pois foi mudando o destino No rancho, campo e galpão Não vi mais charque em pilão Não vi queijo, nem queijeira Nem galpão e nem mangueira Nem lidas de galpão Pois nascera a ambição Pelas mãos... De outra parteira.
Até os ranchos silenciaram Não ouvi mais “oh de casa” Mas para que um “oh de casa” Se quem vem invadindo Derrubando, destruindo, Já não param na porteira Não carregam nem bandeira Não tem metas, não tem glórias, Não precisam mais de histórias, De mascate ou de parteira.