Silêncio de cacimba em alma de rio
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Triste!... É assim a mirada de teu semblante atual, Estagnado, sem menção maior Que a inquietude que provoca teu silêncio.
Sim!... Esta serena imagem... quase ornamental. Desassossega quem te viu em plenitude.
Ah, carreta velha! Foste matraqueira pelo Rio Grande a fora, Com o rangir das maças e da rodas, sob a carga, Quando os passos lentos e compassados dos bois Ritmavam tuas sinfonias de campo, E o carreteiro... "maestrando", Tinha a guilhada por batuta.
Tens alma de rio... andarenga! Recordando os campos e vales, Fostes sementeira de cidades e vilas, Quando da pousadas e paragens. Teus rodados e muchachos Deixaram rastros nas "huellas" que resenharam Os nossos mapas, deste Estado, Grifando caminhos e passagens.
Ajoujo, canga e... canzil, Mais que atrelarem juntas de "mansos" Ao teu corpo de madeira, Levavam vida ao teu ser, Com sons e movimentos, Força pulsante e latente, Impulso de forte corrente Ao teu leito... Sem caudal.
Ao tranco... Te tornastes Na freteira campechana, Transportadora aragana Da produção e munícios, Levando, no teu eixo e tablado, A pura essência pampeana Que não se verga pra carga A superar obstáculos.
É doído... te bombear Em calmaria de cacimba, Quase em silêncio total. Só um ventito teimoso Que balbucia uns lamentos, Vez que outra, entre cambotas e raios. Não mais aquele que te enchia o couro do toldo... Qual estandarte do pampa!
Da lida do carreteiro... E suas proseadas com as "juntas" - A força bruta no "coice”, "Adelante" os "das confianças" - Ficaram lições completas Do entendimento entre os desiguais, E que rumo mais certo É o do trabalho em conjunto... Puxando pro mesmo lado... Remando pra mesma margem.
Quando a noite toldava o campo, Te tornaste quarto e cama Para sonhos estrelados... E romances reservados aos limites do teu leito. Quando mergulhos arriscados E quantas sereias encantaram... Entre tuas firmes barrancas.
O destino... Ah! Este ente que nos reponta, Cruzando nosso caminho E nos guiando pra um Norte diferente, Qual uma mística "boieira”... ... Te apartou pra o lote das lembranças, Onde o coração dos campeiros, Se encontram aquelas "cousas" Que a evolução aposentou, Mas... a memória ficou cinchando, Para exemplo e justiça.
Hoje, Ao te ver assim... De canto, só e ao relento, Me ponho a pensar nesta sina andarilha, Calada no teu silêncio... De rangidos, mugidos e "ôche, boi!..., Me fazem mais que sentido Os teus murmúrios de rio retido pela barragem, Me salta aos olhos a imagem Da pioneira força motriz Empurrando a safra grande Do que produz o país.
Por fim... a tua quietude de cacimba, Quebra o espelho da minha mirada. E teus rastros, na minha face, São sulcos feitos do tempo, "Huellas" por onde passa esse rio... Que da tua alma é afluente, Velha carreta pampeana, Desbravadora e valente!...