Um Quadro em Preto e Branco
No espinhaço dos caminhos, Há um vazio que silencia E invade a espera do sono Dos que resistem à mordaça, Enquanto a noite se achega Trazendo medo, e escuridão...
Num tempo, á muito esquecido, Perdido nas madrugadas Com açoites e chibatas, A noite derrama lágrimas Aos cativos que partiram, Para nunca mais voltar...
Uma sala abriga a história, De lutas por liberdade E repúdio ao desrespeito, De vidas escravizadas Pelo negrume da cor, Que selava seus destinos...
Na velha casa sombria Entre fotos preto e branco, Vejo uma velha senhora De olhos fundos, a fitar, Algo além do meu olhar, Escondido nas retinas...
Havia neles um medo, Uma sentença de dor. Revelando a sua história Sentada à minha frente, De atrocidades impostas Num rabisco na parede.
Eu, logo fui entendendo Que, a imagem emoldurada Refletia uma senzala Disfarçada de pintura, Evidenciando a escravidão Neste quadro, em preto e branco!
Como pode uma só foto Contar tanto do passado. Mostrando falsos sorrisos Mergulhados num escuro, De uma tela negra e fria Com cores de solidão...
Entre um cômodo e outro, Há sorrisos que me fitam Além da velha senhora. Alguns com autoridade De quem foi o grande “sinhô” Desta casa abandonada!
E nas vidraças, trincadas, Que traz séculos de histórias, São como os vincos no rosto Da senhora emoldurada, Que saiu do velho quadro Pra habitar a minha mente...
Vou andando pela casa, Falando comigo mesma: - Esses quadros, na parede, Trazem urgência e verdade... Me desperta um sentimento De busca por unidade!
Um mundo que eu não vivera Deixou duras marcas, e hoje, Vivencio a submissão E obediência a tiranos, Que buscam poder e glória Através da servidão...
Os coronéis do passado Renasceram neste século, Trouxeram, de contrabando, Um olhar de prejulgamento, De soberba e preconceito Que açoita altivez de um povo!
O minuano uiva lá fora, Num choro de antepassados Que, maltratados andavam, Diante dos que mandavam Que dormissem no relento, Em tantas noites geladas...
Neste momento, chorei... Chorei gotas de vergonha Pela hipocrisia de um povo, Que se achava no direito De ser melhor por sua cor, Num profundo desrespeito.
Despeço-me das paredes, Dos quadros amarelados. Mas levo junto comigo A certeza de mudança, E o espírito da Lei Áurea De lutar, por igualdade!