Todo Mundo... Menos Eu
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Chegou um dia no pago, Mui perfumada e faceira. Morena, meiga, trigueira, Mais linda do que uma flor. Prenda dessas que ao vê-la, Por mais taura que se seja, Até a alma fraqueja E mata a gente de amor!
Foi um Deus nos acuda! A indiada se alvorotou! E até um velho que a olhou De amores enlouqueceu! Todo mundo andava louco E o seu amor implorava! Todo mundo a disputava... Todo mundo... Menos eu!
Quando ela passava, catita, Num maneio encantador, O índio mais peleador Gemia de amor contido! E se ela dava-lhe um sorriso, Aquele nunca a esquecia E a todo mundo dizia Que estava de amor perdido!
Perdidos viviam todos, Portal encanto brejeiro. Cada qual era o primeiro A querer um riso seu! E às vezes, por desconfiança Muito índio se atracava! E todo mundo peleava, Todo mundo... Menos eu!
Era uma flor atrevida Capaz de matar de amor! Seu olhar tinha um ardor Que queimava o coração! Por mais duro que se fosse Ao vê-la, a gente tremia. E todo o pago curtia As dores duma paixão.
Se acaso ia num baile, Havia, certo peleia. E quanta pendenga feia! E quanto cuera morreu! Pois na hora de uma dança A indiada se atropelava E todo mundo à requestava Todo mundo... Menos eu!
Uma vez o patrão da estância A levou para um ranchito. Mas nunca viveu solito Pois em grande romaria; Gaúchos, velhos e moços, Não contendo os seus amores, Lá iam, levar-lhe flores E outros mimos, todo dia!
Enfeitavam aquele pouso Com ramos verdes, plantados, Como brindes, disfarçados, Ao novo lar que nasceu. Mas em verdade, queriam Vê-la cada vez mais bela! E todo mundo era dela, Todo mundo... Menos eu!
E assim, gozando venturas Rainha, dona de tudo, Aquele olhar de veludo, Trouxe a tristeza pra o pago... Tristeza, talvez ventura, Pois até valia a pena Sofrer por essa morena Na esperança dum afago!
Um dia, porém a diaba, Se alçou assim, num repente. Ah! Meu Deus! Aquela gente Parece que enlouqueceu! Muito índio se matou De tanto, tanto que a amava! E todo mundo chorava, Todo mundo... Menos eu!
Mas o tempo, esse tirano Que destrói até memória, Foi apagando na história Aquele causo de amor. Voltou a paz no rincão, O riso de novo impera E no rancho, hoje tapera, Ninguém mais planta uma flor!
Seu vulto, não mais recordam. E dela, ninguém mais fala. Se alguém lembra, logo cala Mostrando que já a esqueceu. Pois a linda flor trigueira, Que eu nunca vira tão bela Todo mundo esqueceu dela, Todo mundo... menos eu!