Tropa de Anseios
Publicado em
I Quando, nas tardes, sento para o mate Dou rédeas largas aos meus versos potros, E uma saudade danada então me bate De outras paragens e de tempos outros
Qual boi carreiro, vou remoendo mágoas, Acumuladas pela vida á fora, No rosto, o sulco das vertentes d’água, No peito, a armada que me aperta agora.
Um dia o moço, de horizontes n’alma De mão campeira, caleijada, palma, E uma vontade de engolir distâncias,
Então o mundo transformou-se em estradas, Que se alongam pelas madrugadas, E onde solito, repontava as ânsias.
II A mocidade foi assim, vento minuano. Quando entoei coplas, timbradas no assovio, E, como vento, caborteiro e aragano, Tal como veio, num sopro se sumiu.
Que pena, a gente só vai se dar conta, Que o tempo voa, quando é muito tarde, E como sabe que ninguém lhe afronta, Vai nos vencendo, sem fazer alarde.
Mas é assim, e cumpre-se o mistério. Passar o tempo pra vida é um critério, De quem precisa forjar-se na experiência.
E eu que andejei, na sina de estradeiro, E que pensei, do tempo ser tropeiro, Hoje sou tropa, na ronda da ausência.
III
Agora há um rancho entre mim e a estrada, E há o cansaço dos verões no lombo, E um frio de inverno desta encruzilhada, Não alço a perna pra não levar tombo. E quando o mate vai roncando grosso, Sinto as narinas ir se avolumando, E como os potros, arqueio o pescoço, Já não percebo que só estou sonhando.
Um dia, ainda, parto novamente, Vou estradear no rumo do poente. Esta é a maior de todas as certezas,
Há um turbilhão a me incendiar a alma, Não posso ser remanso de água calma, Se os meus anseios são de correntezas.