Alma em Verso
Poesia

O Corcovear do Pensamento

Uili Bergamin

Publicado em

Quando meus olhos campeiam motivos Que arredam os pensamentos da trilha, Camboneio um amargo, reponto tropilhas, Num corredor de silêncios inconscientes... Picaneando... -minhas razões ausentes, Querendo mudar meus rumos traçados. Por vezes, me sinto acuado... Num brete de anseios no poncho da mente!

Nos olhos do nada... a figura do ser! São as cevaduras que no peito palpita... Essa inconsciência me faz renascer, No verde do mate e na pena da escrita!

Mas um índio guasca e teimoso Reponta suas ânsias sem medo, Encilho o pensamento em segredo, E me agarro firme em suas crinas, Numa dessas campereadas brasina, Nos campos do nada... - calado a esmo! Não me dou conta... e gineteio eu mesmo, Alguns pensamentos que vem na retina.

Enquanto corcoveia, tordilho! Vou entonado, firme em teu lombo, Sei que não é no primeiro tombo, Que se doma de jeito um bagual, Pra enfrenar e cabrestear de buçal, Talvez gaste um quarto de ano, E como o cortar sinuoso do minuano, Em noites de chuva que tem temporal.

E se por acaso for eu o vencido, No rodeio amargo das auroras E se tu me cravar as esporas, Vou te avisando pensamento, Vou te soltar no rodeio dos ventos Pra amadrinhar-se ao vento norte, Talvez encontre uma melhor sorte, Pois aqui, sou eu que te invento.

Assim gineteando em noites charruas, Gotejo os versos que ensaio, São geadas sinuêlas de maio, Feito um manto de céu na coxilha, E esta minha alma andarilha, Encordoa como tropa na estrada, Que vem dos confins da invernada, Com ideais de algum farroupilha.

Por isso não me acudam parceiros, Me deixem solito... - pensando no catre... Tenho que enfrenar outros embates, No campo das coxilhas imaginárias, Quando alço mão na indumentária E gineteio um pequenito instante, Sinto acordes na alma vibrante, num corcovear de idéias solitárias.

Pensamento... - quanta liberdade! Tu és meu pingo amigo do arreio, E no meu e no teu devaneio, Abrimos as porteiras da emoção... Mas não basta viver só de ilusão, é preciso ter um sangue caudilho, Pra sentar no teu dorso o lombilho, E domar as tropas... que vem do coração!

Cd e livro a ser lançado no Festival em 18/12/04