Um homem e um cavalo
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Entendi! Por fim, eu compreendi, já de carapinha moura, Os nervos e músculos, hoje menos ágeis, O porque desse buçal de oito tentos, feio e forte Que arranchei, num preguito, junto à porta!
Sim! ... Eu entendi, não faz muito, ainda chimarreando O porque do meu poncho emalado! O chapéu - barbicacho bem trançado - Como se tivesse olhos, me espiando!
Sim dirão! - Esse homem foi tropeiro e a tropilha Dos seus fletes para muda, eram esses Que aporreavam nas estâncias E os mais tauras domadores, refugavam!
Dirão inté mais a meu respeito! Talvez, me chamem de velho, pouca vista Para vencer picadas no escuro Ou, cruzar com tropa a nado, n´algum passo! ... Só não dirão, isto eu lhes garanto Que o pingo que encilho não é um “mimo” De bueno, de guapo e campeiraço!
Entendi! ... Por fim, eu compreendi, porque o Ó de casa Foi mermando e escasseando meus remendos na bombacha! Talvez, por velho mesmo - de carapinha branca - Ou pelos caminhões que hora a hora Me fazem engolir a polvadeira Das suas tantas patas de borracha!
Bueno! É a vida ... só não entendi, porque me planto, Amilhando ano a ano o meu lobuno, Para andar pelas ruas da cidade Sem um destino certo, p’ra algum canto? Ah! O meu lobuno amigo, é um “lobo” bravo E, eu que nasci negro, mas não escravo, Seguirei sendo o feitor do próprio rumo!
Sim, é a vida! Esta vida que me embretei bem fundo ao peito, É que me faz - do meu rancho povoeiro - Sair com meu lobuno, pelas vilas, Para vê-lo pastar, pelos terreiros!
Amigos? ... Amigos tenho e são tantos e tantos! Por isto, eu compreendi que ainda que o tempo, Não me faça mais patrão dos horizontes, Eu serei o mesmo negro de confiança, De carapinha moura pela idade, Mas com alma e coração, igual aos campos!
Perguntem de mim, para os mais velhos! Indaguem de mim no tempo moço! Por certo, lhes darão a procedência, Quando negrito novo e bom parceiro Para lides, carreiras e bailes, o que viesse! Esse sou eu!
Tenham bem certo, que tudo o que fui na mocidade E ainda o que sou, muito me orgulho! E, se num bem de conversa, lhes falarem Que em bochinchos e barulhos, fui carancho ... Esse sou eu, que inda até hoje não levo Desaforo para dentro do meu rancho!
Por tudo, eu compreendi! ... Já virei duas vezes a erva do meu mate, Mas sempre tem um lado, p’ra um amigo! Meu rancho, nem tramela tem na porta ... Me basta esse Ó de casa, tão somente!
Dizem que há, iguais a mim, em qualquer povo. Homens que nem eu, crias do campo! Um sorriso alegre, minha gente, Todos verão, se é certa, tal história! Que lindo, eu saber que há mais outros, Porque a fé e a esperança me confortam!
Sim! ... Ter um bom flete, seja manso ou seja potro Que relinche de amizade, num terreiro, Faz renascer das cinzas, quase mortas Este orgulho que há em mim, de homem campeiro!