Um Verso para outro Verso
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...Vou recorrendo a invernada Oiga! Verão mormacento! Desde que não fosse norte Até me agradava um vento... A gateada “Marca Touro” Frente aberta e patas brancas Vem espumando um suor No laço que roça as ancas.
Pés descalços sem esporas, Cumpro meu dever campeiro Revisar os recém nascidos Neste final de janeiro... Adiante, uma perdiz corre afoita (...Se assustou dos ovelheiros) que fazem a volta na moita E dali “salta” um terneiro Que igual criança nova ...Mal acorda, abre um berreiro... Por perto, a mãe, uma mocha, Também põe força na goela Baixa a cabeça e num upa Sai bufando na cadela!
Acho lindo o reboliço, Não que eu goste de anarquia... Bochincho não combina com o serviço! Mas, perdoem a minha ignorância, E desculpem a comparação... O campo é uma faculdade, (...Que ensina cada lição sem cobrar nada por isso...) Que exemplo pra humanidade frente a mesma circunstância. Só se garante uma infância Quando alguém defende a cria!
Quebrada a calma da tarde A vacagem se alvorota Num descampado se enlota E fica bombeando pra mim... Já pra trás! Falo com os cuscos, Que também a hora da trégua, Voltam pra sombra da égua O gesto é mesmo que um sim! Vamos, os quatro num só vulto...
São quarenta e poucas vacas Que por repetir a cria Vem parindo bem no tarde ..Quando a imundície judia... O céu me empresta outra cena Mais uma...Que pago o dia! Um quero-quero torena Embora a estampa pequena Meio aos trompaços e alarde Vai sobrando em valentia, Contra um chimando que chia Sentindo a “boca entaipada” Tem que bater em retirada Por respeito ou por covarde...
Desato a corda, vou armando disfarçado Falando baixo, chego bem perto do lote Que começa andar de volta, Cabeça erguida, farejando a minha escolta... Ajeito, não se pode errar o bote Nesses “louco” azebuado, Pois por pouco, ficam flor de ressabiado Aparto a vaca, com a boca faço um bichinho Ele “se corta” sozinho, Bem na feição para o meu braço.
E já recomeça o berreiro Na outra ponta do laço...
Assobiando, despacito encolho a trança Oiga! Verão mormacento... Me alegro, pois é um verso de Aureliano, Daqueles cento por cento Que me adoça os “pensamento” E me traz gosto de minuano! Apeio, sei que estou de bem comigo... A égua deixo maneada Mesmo mansa, é nervosa e desconfiada E quem conhece o perigo Não facilita por nada! Depois que curo o umbigo O laço volta pra os “tentos” Volta a calma pra invernada Convido o casal de amigos E “rumbiamo” direito a estrada! Outra vê, lembro do verso Que á instantes me veio á boca... E sinto que a alma campeira Se alegra com coisas pouca... Abro a porteira Na minha frente, a estrada... Tão sem dono e prisioneira! Pra tas, no verso, a invernada, Tem dono, mas vive livre (...Pelos exemplos que tive nesta simples recorrida...) Reparo a estrada estendida, Aramados nos dois lados, Coma fazendo um fiador... Mistério, crimes, pecados, E uma alcunha:” corredor” (...Lugar onde a dor sem pressa, é onde uma viagem começa e as mudanças são infindas...) Vê as vidas de passagem Suspira em forma de poeira... É pra tantas idas e vindas Jamais teve uma chegada...
Talvez só mesmo Aureliano Poeta maior da querência Contando da sua vivência De galpão, campos e mangueira Mostre que um verso tem verso Pra quem enxergar... (Outra vez, peço perdão, mas vou tentar explicar ou me fazer entender...) Não importa qual o tema O verso é, a sombra do Moema, Que muitos não sabem ver!
No mundo de uma invernada, Recorrer, curar bicheira, Fazer o serviço certo Mesmo sendo gado alheio Sentir-se em casa no arreio Depois, ao troco estradear Que bom ter olhos abertos Ao apear na porteira!