Dia de verao Gaucho
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Madrugada: A noite amadureceu a madrugada e o dia vai abrir os lábios vermelhos da manhã, para engolir a sombra numa grande risada de sol.
Sinto a alegria verde da manhã do Pampa! O campo está todo enfeitado de miçangas, porque a noite enfiou as continhas brancas do sereno nas hastes lisas das flechilhas.
Eu saio de pés descalços para a sanga e vou amassando sob os pés molhados os desenhos do orvalho sobre a grama fofa. Mas quando abaixo e vejo todo o céu na água beijada... vejo a última estrela, que ficou bisbilhoteira, para espiar o sol e ver a cara que ele tem, e depois ir contar às companheiras, que não puderam ficar para vê-la também. Tenho medo de engolir a estrela D’alva. Mas me debruço e vou beber o céu... Como era fresco o céu da minha terra!...
Meio-dia: Todo ar treme sob o sol do meio-dia! O capim, se dobrou sobre si mesmo, trepidando... A gente olhando o campo tem a impressão que derramam sobre ele qualquer cousa derretida!
O gado invadiu as restingas e os capões, para fugir à graxa quente, que o sol derrama derretida sobre a grama.
No lombo da coxilha só um cavalo velho bate o casco, varado de sede, porque teve preguiça de fugir do sol, porque tem preguiça de descer a sanga!
Debaixo dos cinamomos da fazenda a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.
Um guaipeca, deitado aos pés de um peão erra bocadas nas moscas, estalando os dentes. Depois cocoricoca uma galinha que botou e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.
Até o vento tem preguiça de ventar!... Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo, o monótono zunzum das moscas vagabundas...
Tardezinha: O sol espia atrás da última coxilha.
A tarde é úmida e morna como um beijo, na várzea morena como um corpo de china. Na várzea onde a primavera passou e deixou estendida uma colcha de chita!
Eu me deito no treval macio e fico estirado olhando o céu crioulo. Que cama boa e que coberta linda!
Estou sentindo o hálito das flores porque o campo abriu mil bocas para me beijar.
As corticeiras florescidas estendem uma tira de sangue no flanco da restinga.
Quando a tarde cochila nas primeiras estrelas o vento anda borracho de perfume.
E nesta hora eu me lembro de ti, nesta hora de mistério e de lembrar, porque és moreno como o chão do pago com um cheiro de várzea ao sol entrar.
Noite: A coluna do dia já bateu em retirada, porque o sol foi ferido, inundando de sangue toda a estrada do poente só ficou a retaguarda que o crepúsculo manda, resguardando a coluna da avançada inimiga...
Mas já cede terreno aos piquetes de sombras da vanguarda da noite, que se adona do campo...
É um clarim de vitória a presença de Vésper!...
A batalha está ganha! Vem a lua chegando... E soberba e serena, caudilhando as estrelas toma conta do céu...