Velhas Crianças – Adão Quevedo
16º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em
Há um rangido enferrujado na dobradiça da porta e uma lembrança, quase morta, vem de longe, num costado.
Palavras batendo asas entre as paredes sombrias, assombradas de poesia... no eco escuro da casa.
O tempo talha à machado, fere o cerne da existência, escrevendo reticências nas memórias do passado...
O tempo, senhor do mundo, silencioso, inclemente, vai lascando a alma da gente, adiando a morte aos segundos.
Há que se dar guarida ao valor existencial... A vela, no castiçal, é luz breve, feito a vida.
Por mais longa a jornada, o tempo às vezes volta feito um potro que se solta do fundo de uma invernada...
É a saudade, cheirosa, oculta entre as ramagens... Pintando falsas paisagens, espinho... Antes da rosa...
Há um balde, enferrujado, pendurado na roldana da nossa vida, profana, de água desperdiçada.
Agulha num fio de linha costurando a alma do medo, desafiando os segredos ocultos nas entrelinhas.
Uma lágrima, febril, assombra o tempo antigo. O que antes foi abrigo, hoje é um rancho vazio. O bem-te-vi ainda canta, meio triste, sem ninguém, à espera de quem não vem regar as flores e as plantas.
Porém, o inconsciente povoa os labirintos do homem e seus instintos, macabros e inocentes.
Sou meio pedra e ternura, misto de ódio e perdão, morrendo de solidão na boca da noite escura.
O tempo, a cada instante, rouba uma lua de nós... Rio descendo, rumo à foz, com seus estios e enchentes.
O tempo é soberano, senhor da eternidade... Somos restos de saudade de outras vidas, noutros planos...
O tempo...
...é o senhor dos destinos, ilude a vida e as crenças:... Envelhecemos na infância para morrermos... meninos