O Menino de Gesso
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O Menino ainda está lá naquele mesmo lugar! No meio da penteadeira, No quarto da benzedeira Que já não pode rezar.
Mas o Menino está lá, Na lembrança, na esperança, Abençoando e protegendo Os meus sonhos de criança.
Era um menino de gesso De rosto doce e olhar cheio de luz. Era o menino Jesus Que me encarava de frente. Naquele jeito inocente de proteger os meus passos, Levando o mundo nos braços E uma coroa na fronte.
Havia outros santos também! A Virgem, a Padroeira, O Pai dos Pobres e até o Santo Casamenteiro. Do alto da cristaleira, Cuidavam de toda a gente.
Um Cristo na sala da frente, Para acolher quem chegava, Mas o que mais me encantava Era o Menino de Praga, No meio da penteadeira.
Que dó! Quando o coitadinho, No pega-pega da gente, Caiu no chão, de repente E perdeu um dedo da mão! A avó não se enfureceu Mas hoje eu sei o quanto doeu Ver o Menino no chão!
E ele voltou pro lugar No centro do espelho grande. Levando o mundo nas mãos E um terço dependurado, Para esconder o reparo Daquele dedo da mão.
N'outro tombo, Nem sei quando! A cabeça delicada Desmembrou-se do corpo. Colado, quebrado e torto, O menino, não sei como, Voltou a tomar o seu posto.
Do alto da penteadeira, Benzendo a casa e o campo, O mesmo encarnado no manto E a mesma doçura no olhar. O Menino ainda está lá, cuidando da velha tapera.
Talvez esteja na espera De ser escudo e abrigo, Sem renegar a esperança. Ou quem sabe está mirando, Protegendo e abençoando Os meus sonhos de criança.