Alma em Verso
Poesia

3. A Saga do João Coruja – Noé Cezar da Silva

Noé Cezar da Silva

I Estância da Poesia Crioula - VirtualPublicado em

O largo das sesmarias Já não cabia nos olhos. As cores tão conhecidas E mesmo o verde dos mates, Pareciam desbotados Para as retinas cansadas Que o tempo fora mermando.

Os olhos do João Coruja Tinham minguado co'a idade.

Os olhos que há muito tempo Tinham lhe dado o apelido -por merecido se diga-

Diziam que a luz dos olhos Guardava brilhos de luas Dos tantos quartos de ronda Que a profissão lhe obrigara.

Que muitas vezes lhe viam Varando noites inteiras Em vigílias solitárias Tal as corujas do campo.

Além do dito dos olhos, Outro motivo do nome, Era o costume que tinha. De ficar sempre brincando Em assovios afinados, A imitar as corujas, Parceiras das madrugadas

Os olhos que despertaram Desejos e fantasias Segundo o dito das moças E que diziam serem sóis, Pela luz que irradiavam, Transformaram-se em cacimbas, Daquelas abandonadas, Que a poeira cobriu o brilho, Tapadas de folhas mortas Pois não carecem de uso.

Os olhos que se orgulhavam De contemplar seu semblante Refletido nos olhares Das moças da redondeza, Foram aos poucos refugando Os espelhos das vidraças Que por teimosas mostravam A imagem desbotada Que nada tinha de antanho.

Não viam mais refletidos Desejos e fantasias, Tampouco o brilho do sol Que há muito o tempo apagara.

Por isso passava os dias Na janela do galpão No peitoril debruçado.

Ficava bombeando vultos Que se mexiam lá fora Sem formas e sem contornos.

Tampouco lembrava as cores Do arvoredo das casas. Cansado, só lhe restava Ficar “escuitando” ruídos E atento a cada sonido Ficava criando imagens Do que lhe vinha aos ouvidos.

E cada qual mais bonita.

Na hora do lusco fusco Quando os vultos se escondiam No escuro do campo grande, Abandonava seu posto. Sentava junto ao brasedo . Alimentava com pouco O que restara do corpo. Depois, no catre surrado, Fechava os olhos cansados.

Ficava olhando pra dentro, Pras memórias que juntara.

Destas sim lhes via as formas E os verdes com mil matizes.

Na rotina dos sozinhos, Que custam empezar o sono, Ficava sempre pensando Sentenciando pra si mesmo Que a vida sempre nos cobra Aquilo que a gente faz.

Pagava o preço que a estrada Sempre cobrou dos andantes. Maula tributo cobrado Daqueles que por semanas Levavam tropas alheias Em direção do abate.

-“Quem culatreia por gosto/ aceita a poeira nos olhos/ e quem carrega pro abate/ um gado que não tem culpa/, um dia paga dobrado/ pela maldade que fez”.

Lembrava que muitas vezes, Lá na culatra da tropa, Ficara olhando o rastro Das pisadas doloridas Deixando marcas profundas.

Assinaturas de morte Daqueles que, sem escolha, Rumavam para um destino Pelos homens sentenciado.

O capim, as flores vivas Que enfeitavam corredores, Emoldurando alambrados Vergavam ao peso das patas, Fazendo uma reverência Àqueles mugidos tristes Que lamentavam o destino.

E depois adormecia No catre de seus recuerdos Tapados de pesadelos Que sempre lhe condenavam.

Foi então, que numa noite, Depois da reza de sempre, Pediu a Deus que lhe desse O perdão benevolente Pois já estava cansado De carregar esta sina.

Fechou os olhos a espera Que o sono lhe desse alento Que os sonhos fossem amenos.

E o sonho veio bonito... Viu-se de novo montado... Ia tocando outra tropa De um gadario muito manso, Que se perdia de vista, Como se ali estivesse Reunidas todas as outras Que rondou durante a vida.

Não escutava mugidos. Não ecoavam os aboios No verde das sesmarias Nem assovios do ponteiro. Nenhum estouro na tropa. Nem rastros, nem cicatrizes Na terra antes sofrida Pelas patas doloridas.

O capim e as flores vivas Desta vez não se curvavam. No lugar das reverências Um bailado muito suave Como quem faz um aceno Se despedindo pra sempre Dos que vão pra nunca mais...

E o João seguia junto Num assovio afinado E aos poucos foram sumindo Como se fossem chamados Por uma luz muito forte Lá no fim do corredor.

Quando o dia amanheceu A janela do galpão Não se abriu pro campo grande Onde o João se debruçava.

Dizem que... Por muito tempo Uma coruja do campo Vinha pousar junto a ela.

Ficava piando insistente Como quem fica chamando Outro assovio afinado Pra cantar em contraponto

Enquanto vultos passeavam Dando vida e movimento, Pra’o verde das sesmarias.