Alma em Verso
Poesia

2. A Cruz de um Pobre Rural –

Rodrigo Bueno

I Estância da Poesia Crioula - VirtualPublicado em

Quantas vezes solitário, ao derredor de um fogão Quentura pra o coração, nas longas horas de espera Vivendo em rancho ou tapera, no ocaso da existência O posto virou querência, sem devaneio ou quimera.

Nascido em noite de lua, em terras do interior Cresceu sem muito valor, o filho do serviçal Sem educação formal, forjado na lida bruta Desde cedo na labuta de algum trabalho braçal.

Tinha por nome João, sem saber do Evangelista Muito menos do Batista, da fé de sua oração Um crente sem comunhão, que nunca teve batismo Foi sempre o seu catecismo: enxada, arado e facão.

Andou de estância em estância, caseiro e madrugador Foi changueiro e domador, no velho ofício ancestral Na primazia rural, foi um nômade campeiro Peão de estância galponeiro, sem pouso certo ou final.

Entre a fazenda e posto, invernada e o parador O rude encontrou o amor, nesses carinhos de china Nas polcas de relancina, nalgum rodeio ou carreira Romances de vida inteira, temperança campesina,

Tudo ficou na retina, e em verdade, solidão Quisera em contra razão, construir amor e ninho Pois até um passarinho, tem um galho pra pousar Mas João a esperar, ficou a viver sozinho.

Certa feita, o patrãozinho, boquirroto e deslumbrado Gritou com o índio oitavado, lhe chamando a atenção Como pode um fanfarrão, que é rico por ser herdeiro Destratar um companheiro, assim no más, meu irmão?

Mala nos tentos se foi, campeando outra paragem O nomadismo é viagem, êxodo pampa e rural O universo material da pobreza por estilo O campo lhe deu asilo, em seu viver invernal. Bota, bombacha e chapéu, legados do inventário Deixou pelo vizindário, lições de sabedoria Gauchesca teimosia, dos que insistem em viver Remendando algum saber, da xucra filosofia.

De que valeu o destino, do pobre que trabalhou? Das agruras que passou, em seu viver franciscano? O ideário soberano, legado de tua pobreza Fez verdadeira nobreza, no panteão americano.

E já no fim da jornada, o gaudério compreendeu E na morte, renasceu, para gáudio atemporal E o velho peão mensual, que passa a vida lutando Por mil caminhos vagando, encontra a morte afinal.

Forjado a ferro e fogo, no regime pastoril Brutalidade viril da velha escola ancestral A Tricolor Imortal tremula ao vento minuano Demarca em solo pampeano, a Cruz do Pobre Rural!

Crédito da fonte: Quantas vezes solitário, ao derredor de um fogão