Alma em Verso
Poesia

5. Pajador no fim do Mundo

Vaine Darde

I Sinos do Verso GaúchoPublicado em

Se a torre Eifel tombar num terremoto em Paris ou os sertões dos brasis se transformarem em mar. Se o céu se derramar nas águas do Ibicuí e inundar o Itaqui de São Borja a Uruguaiana até molhar o Atacama: eu vou me abrigar em ti.

Se Machu Picchu afundar num vulcão da cordilheira e, de Torres a Cidreira, todo mapa se molhar, quando a costa naufragar nessa tal de tsunami sem ter ninguém que reclame o território do asfalto, eu me vou pro Plano Alto a chamar pelo teu nome...

Quando o clima virar peste e derreter as geleiras levando na corredeira os mosteiros do Tibet e se o pico do Everest for uma ilha no espaço, se o Aconcágua não der passo mergulhado no deflúvio, eu vou remar no dilúvio até chegar nos teus braços.

Se uma enorme pororoca desaguar em Nova Iorque e a milonga virar rock nos confins da Bossoroca, Se, do centro até a biboca, o mato tomar o solo até tapar os meus olhos numa invasão de guanxuma, por mim, que o mundo se suma Se eu for morar no teu colo...

Se um meteoro crinudo se bolear lá pelo Chaco cavando uma baita buraco que ninguém encontre o fundo, eu juro que não me mudo de planeta ou de rincão e, mesmo perdendo o chão, no meio do alvoroço, eu desço por esse poço pra te encontrar no Japão.

Se a lua mudar o rumo e se planchar no Alegrete pechando o pampa de frente pra Terra perder o prumo, chinoca, eu não me sumo pois a minha vida é tua, não sou de fugir da pua e se der esse desastre, eu vou armar nosso catre no melhor quarto de lua.

Mesmo que o sol se apague num conflito pavoroso e a noite peça pouso na escuridão que se alargue, que importa que a treva vague entre e o infinito e o solo se espalhando pelos pólos nesse bárbaro apagão, se eu tenho um fogo de chão e as estrelas dos teus olhos.

Se o mar invadir o pampa numa cheia do Ibicuí e se espalhar por aí mudando a estampa do mapa, ah, eu já saio no tapa braceando pela enchente até dar pé, lá na frente, num pico da cordilheira onde me esperes faceira com o amor sobrevivente.

Se ao lavrar estes confins eu, um dia, pague o preço da terra virar do avesso e desabar sobre mim, não me entrego mesmo assim para a força desse evento, que no braço me sustento em se tratando de arado e saio lá do outro lado lavrando a terra por dentro.

Pouco importa cataclismo pra um gaúcho apaixonado, todo taura é preparado de telúrico heroísmo nesse cerne do atavismo que forja o brio do macho de nunca apagar o facho pelo bem de uma estima e dar a volta por cima se o mundo acabar por baixo.