Quando Rompe a Represa do Olhar
Nasci aqui nesse vale Aqui passei minha infância, Por isso dou importância Quero que o vento me embale. Querem que minha voz se cale 0 governo, a empreiteira, Se vai a lavoura inteira, A taipa grande e o galpão E quem nasceu nesse chão Olha triste pra porteira.
Voltei pra cá escondido, Hoje a água tudo inunda. Minha tristeza é profunda Estou mortalmente ferido. Lamento e não sou ouvido Todo mundo foi embora Ninguém lamenta nem chora, Pois pela indenização Anestesiaram o coração E eu fiquei “só” nessa hora.
Não acredito, mas sei Que vai ser tudo inundado Vão afogar meu passado, 0 potreiro onde brinquei, Os caminhos que cruzei, Nossa horta, o galinheiro, As mangueiras, o chiqueiro E o potreiro do fundo, Trechos de solo fecundo Vão sucumbir no aguaceiro.
Dizem que sou saudosista, Radical, exagerado. Me sinto um derrotado E o meu ponto de vista. Não impeçam que eu assista Crescer esse manancial. Nada mais vai ser igual, Eu constato com tristeza Vejo a água da represa Trazendo meu funeral.
Nunca mais eu verei flores Perfumando o jasmineiro Nem cachorros no terreiro Vigiando os invasores, Pássaros de todas as cores No arvoredo pousar. Depois que tudo afundar Eu perco a maior das lutas, Pois nunca mais vou comer frutas Nativas do meu pomar.
A sensação de derrota É o que mais me aniquila, Me sufoca, me mutila E até meu pranto se esgota. Da garganta já não brota Nem um mísero lamento, Fraqueja meu pensamento E eu me sinto uma criança Vendo a última esperança Fugirão sabor do vento.
Tudo em nome do progresso Pra que não falte energia, Pra que o país possa um dia Ter mais emprego e sucesso. Eu, contrariado, confesso Que considero um pecado Afogar um chão sagrado Berço do povo mais puro, Por um incerto futuro Matam um doce passado.
0 que está feito... está feito E venceu a maioria. E eu sou aquela fatia Olhada com preconceito Dos que em tudo vê defeito E por amor à natureza Saem em sua defesa Vencido, agora eu garanto... Só o volume do meu pranto Já enchia essa represa.