Roça Nova – Nova Roça
Com arado ¨vira-o-ferro¨ E minha junta de bois, Vou romper grama e macega Na capoeira do ¨Repecho¨, Bem perto do corredor.
Faço o ¨repique¨ de enxada Na coivara, entre os tocos (Onde o arado não ¨pega¨) Destoco aquilo que posso Preparo a terra a preceito... “vou planta” de saracuá Um ou dois terços do eito E, entreverado na verga, Largo um catete a meu jeito
Na roça lá do repecho vai uma quarta de planta. Terra nova (preta e buena) É plantio que se ¨levanta¨. Enquanto cresce o plantado, Tenho doma, uns desgarreios, Changuiar com irmãos de lida Pra ganhar mais uns trocos.
QUE PENA, PARCEIRO, É UM SONHO MEIO ACORDADO, APENAS UM DEVANEIO.
E com o olhar fixado No teto de seu casebre, Volta ao presente e recobra A dura realidade...,
É que as luzes da cidade Lhe cabrestearam pra o povo, E aqui, no mais, Sem retovo, Quase tudo é compulsório, E as angustias se acolheram
Com tristezas sinuelas, Numa ¨vila dormitório¨.
O sono se fora embora, ficaram as relembranças.
Era o que lhe confortava, em suas noites insones.
Na madrugada embarcava num coletivo ¨estufado¨ No qual era levado Como bicho ao abatedouro.
As noites eram compridas, As horas não tinham pressa. Os cuscos do vilarejo sonorizavam as angustias, Vocalizando tristezas com uivos de desalento. Reculutava rebanhos de Merinos ¨pura seda¨, Na vã esperança escassa de conciliar o seu sono.
E as madrugadas chegavam sem galos cantarolando, E como alguém sem vida própria, Sem prosear, sem dar risada, Seguia olhando pro ¨nada¨ Juntar-se a outros iguais Como tropa que ¨afunila¨pra o brete final.
A causticante argamassa penetrava-lhe em mãos e alma, Uma névoa de cimento lhe semeava ¨sal¨ nos olhos... Lhe encrudecia o chorar e confundia seu pranto, Que brotava de seu ego como um doce acalanto.
Não mais contava aos iguais Que fora feliz um dia, Somente o catre e a prenda lhes eram sim confidentes, E se faziam presentes, em suas horas de dor.
Queria um dia voltar pros pagos de onde viera. Deixou de sonhar quimeras com o luzeiro do povo, Vendera campo e roçado pra ganhar salário fixo, E hoje em dia, chomico, não lhe sobra um real, Morando numa favela, margeando uma perimetral.
Novo ofício aprendera, por óbvias necessidades, Bem diverso lá de ¨fora¨, onde vivera liberto: Peão campeiro, lavrador, esquilador e tropeiro. Coisas que aqui no luzeiro Poucos já viram ou acreditam Por isso vive solito no meio de tanta gente, Devagar, se consumindo, Em andaimes pendurados Qual perigosos ¨pingentes¨
Entre tijolo ou cimento, Não há Pedro, não há João É mais importante um número, Não nome de certidão, Em um crachá sobre o peito, Lhe impõe esta condição
Fecha os olhos e vê tanto, Muito mais que aqui no povo, Terneiradas em retovo Pelos trevais das ladeiras, Açude de águas claras, Cordeiros em escarcéu E o verde de uma coxilha Beijando¨o azul do céu
Há coisas em nosso meio Mui difícil de aceitá- las O homem perde a liberdade Justamente por buscá-la
VAI EMBORA. DEIXA O PAGO MAS SONHA UM DIA VOLTAR.