No Rastro da Terra
“- O tempo tá firme! Amanhã, antes do galo cantá, pegamo o rumo da roça... Não podemo mais esperá...”
O dia acordou sorrindo iluminando gotas de orvalho... O perfume das flores do campo, inspirando pássaros em cio, na magia de mais um dia de sol... Semana passada, a terra era um banhado, não fosse a caída do solo, bem a contento, atrasava o plantio...
O movimento de chapéus de palha e guampas de bois, atende ao chamado da terra... São braços firmes, são mãos conduzindo com força os arados, abrindo sulcos, rasgando o chão...
Enquanto as narinas se enchem de cheiros dos matos, revoltos, que se entregam sem resistências depois das esperas, a natureza oferece o ventre maduro pra gestação das sementes... E a terra embriaga e alimenta esses homens irmãos que, mergulham na maciez desses sulcos... Não sentem o peso dos pés, que levam por diante o frescor dos veios desse rincão...
Ah!!! O cheiro da terra, saciando esses homens... que secos da sede dessas lidas conversam alto, com timbres de compositor ressoando melodias, entregando suas almas, compondo um misto de euforia e amor...
Nas casas, as mulheres de lenços na cabeça passam café em sacos costurados à mão... Sovam massas que incham para alimentar os fornos de bocas abertas... Os fornos ruminam pães e biscoitos para calar os ruídos das entranhas dos homens e guris que, sentados à sombra de seus chapelões de palha, vão matando a fome da plantação...
E neste intervalo entre saciar a fome de terra e saciar a fome sobre a terra, o povo alemão vai lembrando dos antepassados que, um dia, deixaram do outro lado do oceano suas casas e suas gentes... Vieram em busca das muitas promessas de terras, animais e sementes...
Aqui, foram transformando esse sonho de ganhar a América e, com suas próprias mãos foram moldando o chão, abrindo picadas e miscigenando costumes... Erguendo ferrarias, moinhos e escolas... Nasciam as vilas às margens do rio que os viu aportar... Os sonhos que outrora vieram embalados no rastro das águas, agora ganham vida e forma no rastro da terra...
São dialetos que brotam junto às sementes... São instrumentos, são partes desse ritual... E junto a eles, homens e animais, a ferramenta que os une: o arado... Parceiro dos bois, puxado e guiado pela união fraterna dos dois... - parecem saber que todos são um - Se uns sentem nos lombos a aspereza da lida, os outros, que trabalham com solavancos, sentem em cada soco, as mãos timbradas pela marca da honra, na insistente briga pela vida.
O homem que se traduz em terra, se entrega como quem gera uma criança, transformando o negrume do avesso do chão, que vai receber o tapete verde de uma nova esperança...
É o braço no arado que o homem sustenta... É o soco da terra que ela representa... É a vida chegando pra um novo começo, é a fibra de ser muito mais do que ter... É acreditar no chão como norte de vida e dela, ganhar tudo o que bem merecer...
No repertório dos dias que passam, registros de bem querença afagam a alma. O “êra boi” conforta a linguagem da lida daqueles que não açoitam parceiros, mas dão um “frasta boi” renovando a partida, agraciando com leivas de bocas abertas à reverenciar as bênçãos recebidas...
São filhos do campo, esses homens, que partem bem cedo... que levam nas mãos, e escondido dentro dos chapelões de palha, os segredos das tantas gerações dos tempos de antes... São eles que mantem viva a certeza de cada milagre que a terra oferece aos seus eleitos, filhos dos filhos de muitos imigrantes!