De Rastros e Retalhos
Lento se estende o caminho Na alongada viagem... Paisagens se descortinam, Encadeando realidades. Como se infinda fora a trilha; Como se infindo fora o mundo; Como se infinda fora a vida...
Segue dolente o viajante Ansioso pela chegada. Seus olhos inebriados Pela agonia da espera, Não vislumbram horizontes. Não sente aromas perdidos Nem a carícia do vento. Não ouve os brados da terra. Absorto na viagem Não usufrui seus encantos. Torna-se escravo da tropa, Sequer lembrada partida...
Senda de areias e matas, Planuras e serranias. Tambores de onde os cascos Fazem subir a cadência Pra cantoria do gado.
O andarilho invisível Sopra notas alongadas Por entre aqueles que andam...
Virou o tempo! E o vento calou a sua flauta. O respeitoso silêncio Preludiou a chegada Da noite, em seu negro poncho.
Vivas almas andarilhas Baquearam, precavidas Pela natureza estática A denunciar chuvarada.
A abóbada celeste Chora sentida Grossas gotas sobre a terra. A poeira da estrada Transforma-se em barro. A mata fechada Modifica e multiplica seus sons.
O pranto do firmamento Faz crescer o rio sereno Que se transforma em muralha. Não se encontra mais o passo. O caudal que serpenteia Interpõe-se aos vagalhões Do gado-mar que avançava.
Ante o semblante impassível Do falquejado tropeiro, Quase tocando sua face Chora a aba do chapéu...
A rudeza da figura Esconde alma serena. Os percalços do caminho São apenas mais um passo Em direção ao destino.
Assim, o gado mugindo Levou sementes povoeiras Penduradas nas cangalhas. A esmo jogadas e semeadas Pelos grotões das lonjuras.
Transpondo areias e matas, Planuras e serranias, Foram as tropas de gado Sinuelo Pras tropas de homens, Que forjaram uma raça Temprada nas intempéries.
Raça que em meio à campanha Da América do Sul, Com o fio de seda dos rastros De tantos cascos em compasso, Foi costurando ao Brasil O retalho do Rio Grande.
Retalho aberto em campos Sombreado pelos pinhais Pontilhado rumo ao norte Pelos fogões dos birivas.