Alma em Verso
Poesia

O MAR

Antônio Augusto Ferreira

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vamos ver esse monstro pelo seu lado bom. Eu só preciso silêncio, sscht, sscht.

Eis o mar, a onda vem e bate e se derrama na praia, numa cortina de espuma.

Esse é seu lado bom, o mar da praia, é nesse que vamos ficar. Aquele sentado na cadeira sou eu. O vento drapeja minha bombacha por baixo da cadeira.

De vez em quando o campo vem me visitar e meus olhos se enchem de lágrimas. O amanhecer é lindo por demais no meu rincão.

Quando a gente estava lá fora o dia começava antes do galo. Trabalhamos muito para vir à praia nesta vez.

Aquela criança que corre é minha filha. Ela tem apenas dois aninhos e quer brincar na areia. Faz anos que ela tem dois anos, aqui no mar não muda.

No campo ficou minha saudade, a praia é o meu nevoeiro e a minha esperança.

Daqui a pouco minha mulher vai chegar, vamos prestar atenção.

Oh, lá vem ela, vem juntar-se a nós. Esses dias são maravilhosos, nós só temos essa filha.

Eu espero a mãe para abrir a mateira e cevar um mate.

Repare, minha filha já a viu e corre para encontrá-la.

Mas a onda gigante veio em sua busca, laçou-a pelos pés e a levou para o fundo.

Quando eu vi, minha mulher corria mar adentro para buscar o nosso bem maior, juntou gente à beira d'água e houve um correr de salva-vidas, eu também corria atrás da onda, eu estava me afogando, o pulmão cheio d´água quando alguém me puxou para cima.

Aí as imagens são confusas, as costas me doem, não consigo falar, quero notícias, uma luz intensa me cega os olhos, alguém me aperta o peito e eu vomito água, preciso saber o que se passa, mas ninguém me conta.

Tenho a impressão de andar de carro, correndo feito louco, depois não lembro de mais nada, não consigo falar e choro, não sei há quanto tempo estou aqui.

Quero sair e não me deixam, estou amarrado, grito contra isso! Eu grito para todo o hospital, para todo o mundo, afinal a minha mulher salvou minha filha e me espera e eu não vou, não me deixam sair. Eu, amarrado!

Quando me trouxeram a esta casa meus pés doiam de agulha, meus braços estavam furados. Aqui neste hospital esquisito todos me tratam bem, desde que eu não veja mãe e filha.

Hoje eu fecho os olhos a fingir que durmo, mas venho a esta praia. É preciso manter segredo senão a enfermagem me tira daqui.

Aí está o mar, calmo, calmo. Não confundam este andar de botinas batendo no piso do corredor com o barulho das ondas.

Qualquer hora Deus do céu me traz outra vez o que de melhor a vida já me deu.

O Senhor me perdoe, mas não consigo falar dessa desgraceira sem chorar.