A Dor do Sangue
Antônio Augusto Ferreira
Eu prefiro a dor visível, a dor que apareça, dessas que, alguém vendo, não esqueça, que mostre o quadro como o mais horrível.
40 poesias
Antônio Augusto Ferreira
Eu prefiro a dor visível, a dor que apareça, dessas que, alguém vendo, não esqueça, que mostre o quadro como o mais horrível.
Antônio Augusto Ferreira
O quadro vem surgindo na memória, embora o tenha visto há tanto tempo, com estes olhos tintos de ilusão. Era uma santa, em seu altar de glória,
Antônio Augusto Ferreira
Olhando pela janela vejo a tarde e seus matizes como numa tela. Dos vidros desta janela,
Antônio Augusto Ferreira
A faca corta o gesto de quem investe, é um decreto quando arremete,
Antônio Augusto Ferreira
Madrugada mais lobuna, mateio desprevenido. Tenho andado mal dormido com paixões demais pra um.
Antônio Augusto Ferreira
Este poço não tem fundo, água sim, e muita. Água salobra, água fria,
Antônio Augusto Ferreira
Aqui estou eu vendo nascer o sol em estilhaços de luz, de flor e fogo.
Antônio Augusto Ferreira
Preciso descobrir qual o teu jeito, Eu tenho de saber onde é que andas A cada instante que te vejo Já que tanto te mudas sem aviso.
Antônio Augusto Ferreira
Recém na boca da noite começa meu devaneio, um banco é meu aposento, um mate e nenhuma pressa,
Antônio Augusto Ferreira
Eu tava me aprontando pro baile da noite, mandaram me chamar, encilhe o gateado, toque a galope, a velha tá mal, precisa remédio, não passa de hoje, um pé lá outro cá, parará, parará, parará, parará. Mas logo hoje, na noite do baile, a Marica decerto nem sabe da velha, não vai esperar. Tanto dia pra morrer e logo hoje! Coitada da velha, patroa tão boa, no outro verão, quando a Castiana andou por aqui, me metendo os olhos, rebolejo pra lá, rebolejo pra cá, a velha me avisa, cuidado meu filho, essa não serve, é que nem coruja de corredor.
Antônio Augusto Ferreira
No verão, céu estrelado, deito embaixo da carreta, a saudade não se ajeita, vem deitar no meu costado.
Antônio Augusto Ferreira
Cordeiro de Deus, que tirais a fome do mundo, tende piedade de nós. Cordeiro de Deus,
Antônio Augusto Ferreira
A velhinha me ataca na calçada e pergunta pela filha. Tinha um ar um tanto estranho e havia qualquer coisa no seu rosto
Antônio Augusto Ferreira
Essa sede que anda em todos de cantar os desacertos, a palavra em linhas tortas, tentando arrumar a casa;
Antônio Augusto Ferreira
Eu hoje estou de faxina, vou varrer a casa, escancarar portas e janelas para que entre o sol.
Antônio Augusto Ferreira
Outra vez mais um inverno chegou nas noites de maio. Só eu mesmo e meus silêncios nos recolhemos pra dentro.
Antônio Augusto Ferreira
Meu amor pertence à terra, É o jeito como eu a quero, É quase como um carinho, É um amor que não termina,
Antônio Augusto Ferreira
Eu fui criado assim, gato selvagem, Nos arredores da cidadezinha, Guri sempre fugido pros potreiros Onde pastavam vacas e cavalos;
Antônio Augusto Ferreira
(Comemorativo aos 150 anos da Revolução Farroupilha) Faço um retorno no tempo de cento e cinqüenta anos
Antônio Augusto Ferreira
Rio Negro foi assim, mais que um combate, foi todo um dia devotado à fera, e a gente viu as presas da pantera cravarem-se mortais na carne humana
Antônio Augusto Ferreira
Bateu à minha porta quase maltrapilho, vinha saber se eu precisava de um peão campeiro: "sou de Julio,
Antônio Augusto Ferreira
Distender-se céu afora como pudera esse braço em busca das aspas ágeis, gaudérias quando disparam;
Antônio Augusto Ferreira
vamos ver esse monstro pelo seu lado bom. Eu só preciso silêncio, sscht, sscht.
Antônio Augusto Ferreira
A tarde brinca com fogo, queima o pasto sem perdão, lá vai o campo queimando, ardendo sem compaixão.