Para Ana Rita, um caso de amor sem importância
Publicado em
O marido de Ana Rita morreu num gelo de agosto, roído pelo desgosto, todo torcido de frio. Dava pena ver-lhe o rosto na aragem dura do rio. O rancho de palafita já móveis quase não tinha, uma mesa de cozinha e umas cadeiras de palha do tempo de Ana Rita. Se a memória não me falha teve muito pouca gente pra carregar a mortalha: os quatro peões da lavoura mais a velha impertinente que passou a noite toda maldizendo e imprecando, rogando praga à maldita. (Referia-se à Ana Rita). Voltando ao mundo dos vivos, me dou conta que essa velha teria muitos motivos: dessas coisas do destino, tinha ela posto vela na mão da mãe do menino. Daí, levou a criança, criou com amor de filho, viu-o moço, como quer qualquer mãe que um dia sonha pra ele um lar de mulher (e não uma sem-vergonha, uma Ana Rita qualquer). A moça recém chegara pros festejos do povoado na chalana da cidade, andava na flor da idade e tinha um jeito atrevido. Quando dançava, o vestido queria subir pro céu de tanto que arrodeava. A moçada, em escarcéu, fazia a corte pra moça, cada qual mais decidido, mais guapo, mais divertido, todos cheios de cuidados feito fosse ela de louça. Como foi que aconteceu nem eu, nem Deus, não sabemos. Afinal, por que escolheu o mais humilde de todos pra aquele final de festa e noivado que seguiu? (A lua viu pela fresta do rancho de beira-rio). Alegria dura pouco, mal começa, já termina. Ana Rita doidivanas, fez a coisa leviana, pouco ligando pra vida, té que um dia, aborrecida, se foi na mesma chalana. Ana Rita no retoço tinha cabeça-de-vento. Mas e a cabeça do moço, quem arranja o desarranjo que aquela cara de anjo armou com tanto alvoroço? Quem partiu, se foi sorrindo, quem ficou, ficou chorando, os olhos postos no porto numa espera interminável que se seguiu muitos dias. Mas que tristeza notável naqueles olhos havia. Sem desejos nem vontades, vai mermando do juízo. Chora se lembra o sorriso e não agüenta a saudade. - Ana Rita, não me deixe, já não há calor na canha, nem o rio não dá mais peixe. Assim morreu o marido, roído pelo desgosto naquele gelo de agosto, todo torcido de frio. Dava pena ver-lhe o rosto na aragem dura do rio.