Tapera
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Tapera, como é que pode tal imagem de abandono guardar as descomposturas que a vida fez a seu dono. Tapera, tão pouco importa quanto um dia fora bela, já nem notícias da porta, nem paredes, nem janela, sinal de pomar e horta sem hortaliças nem pomos, velhice mais sorrateira anda apagando o que fomos. Tapera, forno caído, carcomidos cinamomos, decrepitude que atesta o passageiro que somos. Tapera, quanta saudade nos vem dos restos, ainda. Lembranças da moradora que era ruiva e era linda. Palanque de parapeito (potro xucro, sentador). Coração cheio de sopros e tão saudoso do amor. Conversas ao pé da sombra quando o sol tira a camisa; meu pai moço fez-se velho quando o vento fez-se brisa. Tapera, quanta lembrança, quem é que adivinharia, cumpriu-se o ciclo da vida, morremos todos, um dia. Os que restam vão mais tarde, o tempo faz seu trabalho, num dia, cerne de lei, noutro, cinza de borralho.