Cismas de Velho
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Quando a garoa do inverno me atropela pro galpão, chego a chaleira ao tição, corto um crioulo a preceito, e abrindo as varas do peito me ponho triste, a cismar. E logo veio apontar - furando a garoa mansa - a tropilha da lembrança que eu nunca pude amansar.
É balda de quem é velho viver jungido ao passado: - como um boi magro e cansado sofrendo ao peso da canga, mas que paciente e sem zanga vai mascando a malagueta que é o carreteiro sotreta que não lhe afrouxa o serviço. E o boi velho, nem por isso deixa de amar a carreta.
Por mais que tenha sofrido sempre um velho ama o passado. Como um matungo estropiado que já não dá mais rodeio, que gastou no aço do freio seu derradeiro colmilho; que nunca conheceu milho, nunca passou do capim. E o matungo, mesmo assim, tem saudade do lombilho.
Mesmo com marcas no couro de algum puaço mais forte, mesmo sabendo que a sorte lhe foi ventena e mesquinha, um velho quando se aninha no achego dos pensamentos, disfarça esses maus momentos nalguma fresta do peito, como um remendo bem-feito que se tapeia nos tentos.
Esta verdade é sabida dos chirus mais veteranos: - que no rebolo dos anos mesmo as horas mais funestas vão embotando as arestas, tomando um novo feitio. E acaba sempre sem fio o punhal dos desenganos porque o rebolo dos anos gira sempre de arrepio...