Alma em Verso
Poesia

Romance de João Guará

Apparício Silva Rillo

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(À sua memória) Sempre que paro rodeio no meu baú de memórias, de lá reponto a história de um índio sem pretensão, que nunca teve rincão nem jamais dobrou pousada, pois tinha os olhos na estrada e a estrada no coração. A estrada - mundo de todos sem ser mundo de ninguém - foi o seu mundo também, seu paraíso e calvário, e nesse destino vário, nesse andejar meio a esmo, pra ser fiel a si mesmo nunca teve itinerário. Tinha horizontes no sangue, e aquele sestro esquisito de destapar o infinito que todo caminho tem, como sempre houvesse além, sutil, mui alto e fugace, um luzeiro que o chamasse como a estrela de Belém... Foi-lhe berço, cancha e cova a missioneira querência, onde cruzou a existência numa constante inconstância. E assim, de estância em estância, de pouso em pouso rolando, ia o vago se enfrascando de sol, de céu e distância. - Lembro-te assim, João Guará, pois ainda assim te vejo, no teu destino de andejo pelegueando a vida, ao léu. Tinhas por rancho o chapéu e acima dele somente o poder do Onipotente e a quincha grande do céu. Estrada, Viola e China sempre foi tua trindade, mas pra falar a verdade foste fiel a só duas; pois se várias foram tuas das chinas que conheceste, jamais te deste ou prendeste pelo amor dessas chiruas... Mais que àqueles que acamparam no teu velho bachará, mais que a todas, João Guará, amaste à tosca Viola, que pra um gaudério que rola sabe ser, a qualquer hora, china que canta e que chora, mulher que afaga e consola. Por isso sempre a trazias contigo na meia espalda, vaqueana de tuas baldas, senhora de teus caprichos, no mais fiel dos cambichos que já se viu na campanha, sacramentado na canha do altar pagão dos bolichos. Foste o Angüera redivivo dos bailongos campechanos, onde chinas e paisanos vão dar pasto às ilusões, e onde às vezes corações disputando o mesmo afeto se entendem no dialeto macho e brutal dos facões. Pelas canchas de carreira do Pilar, do Sarandi, sempre estavas por ali dando um floreio no pinho, cantando às vezes sozinho porque de fato, xô-égua! não era qualquer xubrega que te cortava caminho. E até mesmo nos velórios vinhas dar ronda e vigília, trazer conforto à família e a despedida ao defunto. Passavas a noite junto sempre dando o ar da graça, fazendo andar a cachaça... pra não mermar o assunto... Como pra todos, na vida, chegou um dia o teu dia. E o Gaudério - que ironia, que mala suerte, também - sem que o notasse ninguém quebrou-se num fim de maio ao rodar do pingo baio que o povo chama de trem. Ficaste ali junto à linha, como um pelego atirado, tendo a Viola a teu lado para o suspiro final. China buena e sem igual que em teu último momento bordoneou à mão do vento num sentido funeral... Velado pelas estrelas cruzaste a noite solito, num funeral esquisito, sem reza e sem escarcéu, e ao se quebrar o sovéu que te ligava à existência te cambiaste de querência rumo à porteira do Céu. E agora, na Estância Grande, com Santo Onofre e o Negrinho, floreando os bordões do pinho e a garganta de cardeal, pões o acento bagual do teu Rio Grande de origem na pauta singela e virgem da orquestração celestial. E que se cuide, portanto, Santa Cecília, a maestra, que de repente, na orquestra, te sobressais, milongueiro, e abrindo o peito campeiro dás na Viola um retoço, largando um vanerão grosso dos de arrancar pessegueiro! Como aqui, que lá no Céu nunca falte às tuas ânsias o mistério das distâncias por descobrir e andar; e que quando eu me bandear daqui pro lado de lá, sejas tu, meu João Guará, quem me abra a porta, ao chegar.