Disparo de Tropa
Abre-se a pálpebra do dia descortinando a manhã, bocejando num afã de alumbrar sesmaria, na quentura que irradia o astro rei em destaque, o mate adoça o sotaque, de mão em mão da peonada e pássaros em clarinada vão despertando o bivaque.
Fogo de chão estralando, cambonas postas à frágua, gamelas cheias de água, trafugueiro defumando, café preto borbulhando, caracu, feijão mexido, e aquele estranho alarido de gente e de movimento levantando acampamento para mais um dia surgido.
A boca da noite chupa lua e estrelas com luzeiro, se recolhe e o sombreiro é destapado num upa, plantas soltam da garupa o orvalho adormecido, ao longe ecoa um mugido que no lançante se encerra, parecendo a própria terra parindo pátria em gemido.
Enquanto o dia se desenha, entre as dobras da coxilha, a peonada andarilha não se achica e nem desdenha, ao longe se ouve um: - Venha... num grito xucro e campeiro e eis que surge o ponteiro com a tropa lhe seguindo e as sombras tremeluzindo pelo corredor pampeiro.
Nuvens andejas ao léu sombreiam a tropa espichada que segue ensimesmada, com aspas orando ao céu, um touro faz escarcéu pelo meio da tranqueira e a peonada costumeira vai repontando lamentos, ao tranco dos passos lentos que erguem nuvens de poeira.
Volta e meia ecoam ecos de gritos quebrando a paz, na culatra o capataz segue a tropa com seus trecos, de pega-pega nos flecos e a visão da xucra estampa deste bailado do pampa, na pista do corredor, com passos de marchador e parêntesis de guampa.
Lembranças alimentadas a cada passo avançado, no cheiro forte do gado, nas planuras sepilhadas, saudades enclausuradas na memória que se ensopa, e num instante se topa com a parada do trote e uma cruzeira num bote faz o disparo da tropa.
É um trovão no espaço quando a gadaria explode, cada um faz o que pode, pra conter o estardalhaço, músculos tesos de aço, pra controle e proteção, rédeas firmes à mão,
equilíbrio e destreza, pra enfrentar a natureza do risco da profissão.
Muda a paisagem campeira com cascos em disparada, sangue bovino na estrada, em alambrado e porteira, uma cortina de poeira vai a tormenta formando, cabeças de rês boleando em fúria descontrolada e a tropeirama embolada, enforquilhada e mangueando.
Homem e cavalo, um só, em completa harmonia, em osca selvageria, sapateando mocotó, sumidos em meio ao pó num tempo feio incomum, no meio do berzabum um tiro de trinta e oito é um sofrenaço afoito pra atormentá vacum.
E tudo fica parado na quietude do momento, na copla suave do vento, o gado volta estropeado, tem alambrado quebrado com arame retorcido, algum corpo de rês caído, e a peonada de relancina vai baixando a adrenalina ao som de cada mugido.
Seriedade em cada rosto, atenção ao que é seu, nem um homem se perdeu, cada um assume seu posto, a lida equivale ao gosto da vida que se desenha, cada manhã nasce prenha de novidades assim, com princípio, meio e fim, e gritos de: - Venha, venha...